Convergiram as reações ao cérebro. Tudo o que sentimos. Responsabilizamos a cabeça pelas frustrações, nunca o usuário dela. Já não sei mais quem a usa direito. Já não sei mais quem sequer a usa. A cabeça está perdendo sua funcionalidade, se é que já não perdeu. Virou um reserva de luxo, tal qual jogadores de renome em clubes de futebol. As pessoas tem usado alguma outra parte do corpo para processar informações. Mas não é o cérebro, o suposto software. Creio que o hardware, no nosso caso, o coração, têm sido usado cada vez com mais freqüência. Usado para algo que não foi feito originalmente. Têm que ser parrudo esse coração pra digerir o que entra dentro da carcaça acima. É como se tivessem desativado o principal filtro do corpo humano, deixando entrar livremente toda e qualquer coisa. Daí já viu né, vai tudo direto para o coração.
A cabeça humana é e funciona como uma peneira. Não qualquer peneira mixuruca, mas uma peneira total flex. O tamanho dos orifícios dessa peneira diminui e aumenta de tamanho de acordo com as conivências individuais de cada um. Dois pesos, duas medidas? Tá mais pra N pesos e N medidas. O cérebro é como o nosso estômago, mas digere sons, imagens, informações, textos e quem diria, até sentimentos. Os ácidos que o estômago usa na digestão do bolo alimentar é o equivalente ao acúmulo de princípios que vamos formulando ao longo da vida. O cérebro bombardeia o que entra nele com esse banco de dados de preconceitos, moralismos e outros tipos de regras que criamos para nós mesmos baseado no que experimentamos até o presente momento. Dependendo de como essa mistura rolar, a informação passa pela peneira e passa a ser catalogada em nossa cabeça.
Mas no fim do dia somos seres orgânicos. Mudamos de idéia o tempo todo. E elas nos mudam também. Por isso a existência de tantos atritos entre seres supostamente racionais. Nossa lógica de funcionamento têm uma máxima: ela se altera constantemente e isso se perpetua antes mesmo de nascermos. Tentamos colocar em ordem um ser em constante mudanças. É mais ou menos como a gripe que se propaga pelo ar. A gripe que você pegou ano passado não é da mesma classe de vírus da gripe que estará este ano mundo afora. E não há vacina que resolva isso. Em outras palavras, a gripe está à nossa frente, sempre. Nós somos o Rubinho Barrichello nessa corrida. Com a diferença de que não somos pagos para perder.
Voltando. Então o nosso filtro foi limado – por nós mesmos, ressalte-se – e restou ao corazón “processar” o que der e vier. Processar entre aspas porquê o coração não processa nada, ele simplesmente reage. E nós reagimos explodindo, sem fazer as tripas voar pra fora. É mais ou menos como tentar pedir para uma mula entender de física quântica. Não tô chamando os humanos de mulas – que são mais inteligentes do que a gente, sem dúvida – mas chamando o nosso coração de mula. E nós acabamos nos tornando uma mula por dar ouvidos só a ele. Como é o nome daquela música mesmo? ‘Listen to your heart’? Vai nessa então. Dê ouvidos a mula. Quando alguém faz alguma cagada ou algo muito grave geralmente diz que ‘perdeu a cabeça’. Mas alguém já viu um cidadão falar que ‘perdeu o coração’? Não né? Eu já.