Sobre Locadoras e Visões

28 04 2008

Em meio à essa emaranhada rede de informações, a internet, me vejo numa situação rara. Não deveria ser rara, mas faz alguns anos que tá rara. Me vi dentro de uma locadora de filmes. E me senti bem com isso. Não sei explicar, a bendita sensação das luzes fluorescentes, tirar dúvidas sobre algum filme com algum funcionário da loja, encarar aquela pilha interminável de películas e mais películas. Deu gosto de sair de casa e mergulhar naquela imensidão. Poderia passar horas olhando para o nada dentro da locadora.

locadora 
É mais ou menos isso 

Elogiar a internet hoje em dia é chover no molhado, mas a criação mais bajulada, lambujada, venerada, contemplada em nosso tempos pós-modernos, tem lá suas limitações e “falhas”. Na verdade a falha tá na gente mesmo, acho. Tá tudo muito confortável (leia-se engordurável), baixar músicas e filmes. Pra que levantar o traseiro do sofá e ir até a locadora? Baixar da internet é de graça e não precisa levantar bumbum algum, certo? Errado. O preço que se paga, na minha singela opinião, é bem maior do que o valor cobrado no aluguel de um lançamento de dvd. É o preço da perda de afeto, de tato, de convívio com outras pessoas. Isolamento que ilude e cega aquele que acha que tá no mais puro aconchego de seu lar.

O ser humano precisa socializar, é da sua natureza. Porra, eu amo me comunicar, é uma necessidade espiritual, básica, you name it. To fazendo o que aqui agora? A única diferença é que se eu tentasse falar tudo o que eu to escrevendo aqui (em praça pública, digamos), provavelmente seria visto como lunático que fugiu do hospício. Sei lá, é incrível ver como os avanços tecnológicos nos fascinam a tal ponto que, simplesmente esquecemos que somos seres físicos, que temos duas pernas e uma mente disposta a metralhar idéias pela boca.

O orkut nada mais é do que a virtualização da socialização. E bota socialização nisso. Fulano mora no mesmo prédio que cicrano, no entanto, manda scrap para o camarada. Numa conversa entre duas pessoas, na minha opinião, independente do nível da conversa, não importando o assunto que está sendo abordado, o simples ato de estar frente à frente com uma pessoa é algo diferente. É o ápice da conversa, palavras sendo ditas de maneira que, causam estranhamento, espontaniedade, alegria. Nesse mundo cibernético, ficou definido pelos usuários que frases em caixa alta exprimem uma gritaria. Bobagem.

Sair de casa, botar o pé na rua, ver coisas novas, respirar um arzinho (mesmo que seja sujão), caminhar pela rua esplêndida, admirar coisas que passam despercebidas no dia-a-dia, alguém vê graça nisso? Com absoluta certeza, afirmo que há graça sim. Entrar na loja de cd’s e comprar um álbum novo, chegar em casa e tirar o embrulho da caixa, jogar no som e folhear o encarte. É uma experiência que eu já não faço há séculos e o mais irônico? Tenho a opção de fazer isso agora. Que tal deixar o post inacabado e sair pra rua? Boa idéia. Fui.

Créditos: flickr da débora marcanth





Virada Cultural em São Paulo

28 04 2008

Não sei nem por onde começar já que minha cabeça tá virada neste exato instante. Virada mesmo. To tonto pra caramba. Perdi a noção de tudo. Desde às 18h00 de ontém (26) eu tava fora de casa rodando a cidade.

Combinei de me encontrar com um amigo na estação República, pra mim foi fácil chegar porque eu moro a duas estações de lá, mas meu amigo demorou um tempinho. Enquanto eu esperava ele, as massas vinham e não paravam. Era uma quantidade de gente inacreditável, todos indo para o centro conferir de  perto o que tava rolando. Encontro meu amigo e a gente segue rumo. Entramos num consenso e decidimos ir ao Pateo do Colégio ver o palco dos Festivai Independentes, mas nem eu, nem ele sabiamos como chegar lá. Cheguei num segurança do evento e perguntei como faço pra chegar lá, mas quem respondeu essa pergunta fora um senhor marrento: “É DO OUTRO LADO DA CIDADE!”, berrava o cara enquanto eu dava as costas pra não ouvir mais bobagens vindas dele.

vanguart 

São Paulo é gigantesca, mas não precisa me fazer de idiota. Eu sabia onde estava e tinha noção da distância para o Pateo do Colégio, só não sabia qual direção seguir a pé. Felizmente quando fui perguntar para outro segurança, ganhei de bandeja um guia do evento com todas as informações. Chegamos ao Pateo do Colégio, completamente lotado. Assistimos a duas bandas: Luísa Mandou um Beijo (RJ) e Vanguart (MT). A banda carioca deixou a desejar, mas deixou uma boa impressão. Já a banda de Cuiabá, fascinou, entreteu e prometeu mil e uma maravilhas; nem precisava, o som deles dá conta disso. Muito boa a banda e já na platéia deu pra perceber uma base de fãs cantando todas as músicas.

Fim do show da banda de Mato Grosso, tive a jumentice de concordar em literalmente, rodar a cidade. Pegamos um metrô e fomos até a Avenida Paulista, de lá dirigimo-nos à Casa das Rosas pra pegar a apresentação do Tom Zé. Eu não fazia idéia de que tipo de som o cara fazia. Nenhuma noção. E continuei sem ter essa noção. Tinha umas 4 mil pessoas vendo ele fazer um discurso anti-imperialista, anti-isso, anti-aquilo. E não ficou restrito a ver ele fazer esse discurso, mas deixar se levar pelo que ele fala e repetir as bobagens dele. Eu e meu amigo estavámos praticamente colados no palco, colados eu disse, não esprimidos, esse quesito tava tranqüilo. Atrás de nós havia um cidadão que ficava incentivando o artista:
“Vai Tom Zééé, arrebenta cara!”, ouvi pelo menos 15 variações dessa frase, claro, vindas da mesma pessoa.

De bom mesmo, só os músicos que acompanham o cara. Destaque para o baterista que destruiu a pobre coitada. Show ao ar livre, preciso falar sobre fumantes? Não, eles não merecem um post inteiro, mas merecem ser banidos. Gente egoísta, poser, imbecil que não percebe o quanto o cigarro incomoda. Mas eles que se fodam, já estão se fudendo só por fumarem, ao menos que se fodam sozinhos, sem prejudicar os outros.

Opa

Fim do show, lá vou eu denovo ao centro de encontro a outro grupo de amigos. Metrô às 1 da manhã é um caso curioso. Tô dando uma olhada no meu guia do evento quando um sujeito me aborda e tenta pegar o cartaz das minhas mãos. Desviei o guia e fiquei só na bronca visual com o filho da puta. Passado o susto, outro sujeito vem e me pergunta: “E aê manô, se sabe kóé à vrada paulishta?”. Demorei uns 3 minutos pra entender o que diabos o cara queria, até o próprio grupo de amigos dar um pedala nele e calar a boca dele.

A essa altura já tava pensando em desistir de achar os outros companheiros, nóias de ser assaltado rondavam minha cabeça, até que, recebo um sms do meu camarada que me avisa aonde eles estão. Vou ao seu encontro. Saio do vagão e chego na estação São Bento, completamente tomada pela multidão que se esbaldava à um som bizarro de não sei qual banda, estilo, genêro, nada, não consegui prestar atenção em nada. No mais puro chute intuitivo, consigo achar o Café onde fora combinado o encontro e localizo meus queridos meliantes. Já devia ser duas da matina e o centro de sampa, bombando. Bombando de sujeira, de gente usando crack no meio da rua, gente mijando nas portas de lojas, água da mais pura contaminação de doenças passando do meu lado, um escuro que tomou conta de todas as ruas do centro. Me senti na Idade das Trevas.

A loucura de rolar a cidade já tinha terminado? Jamais, nunca, nevá. Fomos ver mais uma pista de dança eletrônica, acomodamo-nos perto do Viaduto Santa Efigênia e fomos entrevistados por um pessoal da TV Cultura. Logicamente, todos desceram o pau no evento. E a equipe da rede de televisão ficou mais do que satisfeita com as respostas. Próxima parada: Cine Sesc na Rua Augusta. Mais caminhada, mais metrô, novamente Av. Paulista, se bem que era o único lugar de fato, sossegado, do evento inteiro. Mas antes, passamos por uma Pizzeria. Ressalto, a pizzeria menos organizada da via láctea. Cinco filas paralelas umas às outras. Vai entender o que cada fila representa. Paulistano ama fila e tem os que amam furar fila, a esses eu desejo que furem-lhes seus respectivos esfíncteres.

pessoas

Fim da pizza, início da sessão de Control, filme do Anton Corbijn às QUATRO da manhã. Quem paga pra ver filme a essa hora? Eu, paguei pra… dormir. Jumento total. Achei em sã consciência que ia conseguir me manter acordado durante a sessão. Não posso dizer que vi Control, vi TRECHOS do filme, praticamente paguei pra ver um trailer. Mas posso dizer, os caras que escolhem as poltronas do cinema sabem escolher, que troço confortável, como eu amo dormir durante filmes. Pode ser o filme do ano, mas não adianta, nada me prende (será? é espero que aquilo me prenda, senão é o fim do mundo). Os meus amigos e amiga tavam se rachando de rir, até que eu levantei uma sombrancelha e percebi a pendenga. Claro, sorri junto. Falei que tinha dormido muuuuuito bem. E tinha mesmo. Saindo do cinema, os organizadores desta sessão hiper-mega-ultra-super especial deram um café da manhã pra quem viu o filme. Suco industrializado e um pacote de saco plástico lacrado com uns mini-croissaints. Suficiente pra matar a larica.

Carona dos amigos e às SETE E MEIA da manhã estava em casa. Eu devia tirar o chapéu pra eles já que eu poderia capotar no minuto em que botei o pé no quarto, eles ainda teriam cerca de uma hora até chegar em casa. Dormi até às 18h00 e perdi o resto do segundo dia da virada. Segundo relatos, o segundo dia fora bem mais tranqüilo que o primeiro e tinha menos gente, menos bagunça e shows melhores. Claro, óbvio, lógico que eu perdi isso, mas fuck it, fica pro ano que vem. A real é que Sexta, Sábado e Domingo pareceram um enorme dia enxutado em um dia só. Torço para que em 2009 a virada não vire furada. Fui.





Garotas Suecas

26 04 2008

Está na categoria ‘Achados Musicais’ este post, mas esse achado já tem algum tempo. Não achei ele ontem, por assim dizer. Conheci a banda através do meu irmão e ele através de amigos. Vamos dizer assim, faz muito tempo que eu não ouço um som tão original quanto esse. Vi dois shows deles e não sei se preciso ficar criando fórmulas literárias pra elogiar o som: é simplesmente gostoso de ouvir. A letra e a melodia parecem ter sido feitas há 40 anos atrás, percebe-se isso na faixa ‘Ninguém Te Ama Como Eu’, genial. Cairia (e já está caindo) facilmente na graça de qualquer público, creio eu.

Curiosamente, a banda só tem uma garota. Os outros integrantes, marmanjos. Mas isso é o de menos. Todo o clima das músicas tem um ‘quê’ especial e fica praticamente impossível não se deliciar com cada verso que é cantado. Bajulação por bajulação e vão achar que alguém tá me pagando um jabá pra falar deles. Que jabá o quê, a audiência desse blog consegue perder pro vácuo, aceito propostas de jabás sim, vindas de garotas suecas.

 

Referências a Beatles e a Stones são evidentes, mas o modo como elas são tratadas nas músicas impressiona, pela sutil simplicidade ou pela sólida identidade que a banda criou com o seu som. É o tipo de banda inconfundível. Desde 2005 eles vem demarcando espaço na cena independente e se para este blogueiro parece óbvio, eles devem estar sedentos para explodir na mídia e sair fazendo turnês mundo afora, ou seja, questão de tempo.

Vai ser fascinante assistir um show desses caras e dessa garota num estádio lotado, quando eu já presenciei 40 pessoas num clube qualquer aqui de São Paulo. Exagero? Nem um pouco. Qualquer um que considere sua sanidade musical em dia, acho que tá precisando e procurando um som deste naipe. Deste calibre. Nunca a suécia esteve tão em alta com os brasileiros. Enfim, sem mais enrolação.

Os Garotas Suecas são: Guilherme Saldanha (voz, gaita, pandeirola), Tomaz Paoliello (voz, guitarra), Irina Bertolucci (teclado, harmonium, pandeirola), Perdido (voz, baixo) e Nico Paoliello (voz, bateria).

Confiram no MySpace do Garotas os sons e a agenda de shows.





O tempo, sempre ele

24 04 2008

É de se admirar nosso semelhante. Como é que alguém se dispõe a pagar mais por um relógio do que pela comida que ele tem na geladeira? Pagar por um objeto que não faz nada além de solidificar uma convenção humana, tornar ela vísivel e concreta aos nossos olhos. Comprar um objeto que, segundo o seu valor, demonstra status social e no paradoxo dos paradoxos, controla literalmente as pessoas. E a pessoa se orgulha de usar o tempo no pulso. O ser humano é mesmo incrível. Você pensa na noção de tempo e te vem em mente o seguinte: um monte de números mudando, indo pra frente, essa abstração que controla nossas vidas ou será que a gente se deixa controlar por ela?

O tempo então, a príncipio é algo simples, mesmo sendo uma pura abstração. Mas não, nós, seres humanos, a gente pega o tempo, pega não porque é impalpável, mas agarra o conceito dele e joga num molde, o molde da produção massificada de um objeto que irá representar no mundo real de forma sólida o que é tempo. Dois ponteiros andando, uns números, um design assim, totalmente na moda e pá pum, temos o relógio. Se o sistema é controlado por senhores engravatados que veêm tudo de cima, eles provavelmente tão dando risada de como o ser humano é idiota. Idiota ao ponto de comprar algo que ele mesmo não vê, mas como o fundo do poço é lá embaixo, o imbecil ainda se deixa controlar pelo tempo.

Não vou entrar aqui na discussão da sociedade, de como o mundo funciona. Funciona pra quem tira proveito; pra quem DEPENDE dele pra sobreviver, garantir um sustento e um lazer aleatório, jamais funciona, muito pelo contrário, controla e conduz CADA SEGUNDO de outros humanos.

Eu não uso relógio, ponto final. O sol e a lua dão conta muito bem de me dizer que horas são. Tenho a noção de que se o tempo fosse personificado ele seria o cara mais odiado da galáxia. E numa história de ficção científica, o tempo diria em alto e bom som para quem o tentasse matar o seguinte: “Se você me matar, você morre também. Se eu não existo, ninguém existe”. Eu mataria ele por curiosidade. É o típico cara chato que não consegue (nem quer) passar despercebido, quer chamar a atenção, quer ser o centro da atenção. Tá seu chato, conseguiu. Marketeiro de merda, me diga como tantas pessoas caíram na sua idiotice?

Não dá pra se livrar do tempo não? Ignorar a existência dele? Criar um novo conceito do que é a vida? É como tentar reinventar a roda, voltar no Big Bang e começar do zero, passar a borracha na história da humanidade e dizer : “Galera, não tá boa essa cena, a gente vai gravar denovo”. É essa a percepção que eu tenho, de que tá tudo programado. Tem um pessoal que cuida do roteiro de todos nós. E quem comanda todo essa equipe? O tempo, ele mesmo.

Não há explicação plausível para você vir conversar com uma pessoa e ela te olhar e falar: “Tô com pressa, sério, falo com você depois”. Depois?! Depois é agora, ô cidadão. Não tem essa de passado, logo menos, logo mais, pura balela tudo isso. É tudo a mesma coisa. E por que essa pressa? Por que tem esse tal de tempo dizendo pra ele que se ele não entregar o relatório até um horário determinado, o chefe dele vai comer ele vivo. E o chefe que acha que tá acima de todos seus funcionários, tá abaixo do tempo.

O nada ganhou um post inteiro num blog. Realmente, é de se tirar o chapéu para o nada. Nenhuma explicação científica, nenhuma verdade absoluta de como funciona a estrutura do universo vai me convencer (tatuar uma convenção em mim) de que o tempo existe. Malditas convenções. Parem, parem de convencionar bobagens, parem de criar falsidades, já tem bilhões comprando essas traquinagens.





A Pressa é inimiga da Intuição

21 04 2008

Taí o problema dessa era moderna, era digital, era nova, chamem do que quiserem, mas o que comanda nossa era é a pressa. Já discursava o escritor italiano Ítalo Calvino, sobre a importância da rapidez em seu livro Seis propostas para o próximo milênio. Eu então, tô a milhão, literalmente na velocidade da luz. Estudando até a exaustão e ironicamente, não mandando tão bem nas provas quanto gostaria. É idéia pra filme aqui, idéia pra mudar o mundo acolá (santa ingenuidade), idéia de como ser mais produtivo, mais feliz, enfim, mais ativo(?). É intrigante.

Estática Alucidativa
Crédito: flickr do caravinagre

Norinha, Norinha, essa mulher abriu meus olhos com sua música “Not Too Late”. Noronha. Norona. Norah ”fucking” Jones e seu mais novo álbum que carrega consigo o nome da música citada cima. Menina (ou será mulher) de voz cativante, essa é a palavra que define o que essa mulher faz. Um som cativante. Novo álbum nada, foi lançado já faz um tempo, mas soa como novo. Novo porquê remete ao meu momento atual.

Tudo na base da pressa hoje em dia. Se você deixa passar um segundo, pronto, perdeu la oportunidad de su vida. Vai fazer o quê? Reclamar não adianta muito. Esbravejar contra si mesmo também. Culpar os outros menos ainda. Falar com a parede pode ser bem útil, ela é uma excelente ouvinte e olhe só: ela nunca dá palpites nem mexe os lábios, concorda com tudo que você disser, mesmo que seja uma montanha de bobagens sem fundamento.

Pra que usar a intuição hoje em dia? Até parece que a gente lida com mistérios insolucionáveis no nosso dia-a-dia. Balela. Pegue qualquer assunto com uma importância de formiga e você vai ver como cada pessoa trata ele. Vai usar a intuição pra que com tanta pressa em cima da cuca? Quer dizer, pode até tentar dar uma pausa e tentar montar ou estruturar um pensamento intuitivo que possa te levar a alguma conclusão coerente, racional, chame ela como melhor agradar-lhe.

É de dar risada mesmo. Nada mais me surpreende. Talvez não seja só comigo. Essa palidez ou indiferença frente à tudo que jogam na nossa cara é no mínimo, estranha. Te contam um fato esperando que você plante bananeira no terraço de seu apartamento e você meio que engole aquilo sem reagir nem mexer uma sombrancelha. Ninguém tá nem aí pra mais nada. A reação é a mesma : “Legal hein campeão!”.

Aí pra ficar mais esquisito (este é o quesito), ninguém mais tira satisfações. Ninguém deve mais satisfações, nem pra pressa dos outros, nem pra intuição deles mesmos. Fica tudo flutuando, tudo relativo, nada objetivo. Não é questão de comprar no supermercado pressa ou vender intuição, é questão de entender porquê tá todo mundo nesse comodismo mental ou eu perdi alguma coisa? Tá tudo em seu devido lugar? Todo mundo jóinha fazendo sinal de positivo com o dedão?

Sei não, mas acho melhor eu parar de comer cereal radical todo dia, porquê de tanta radicalidade só tenho visto passividade, e essa passividade significa falta de atividade.





A esfera e você

20 04 2008

Duas coisas tão distintas com tantas semelhanças. Afinal, que relação a vida tem com o futebol? Que lições pode-se tirar de ambos? Pontos em comum? Traços característicos? Um monte de coisa. Num jogo há dois tempos, cada um de 45 minutos. Eu encaro a vida igualzinho. Os primeiros 45 anos e os outros 45 com a prorrogação. Se o juiz for generoso com a prorrogação do 1º e 2º tempo a gente chega nos 120, faltas, paradas técnicas, catimba do advesário, repoisção de bola. Assim como no futebol, na vida a gente exerce uma função dentro de campo (no mundo real), somos atacantes, volantes, zagueiros, alas, meias, centro-avantes? Ou somos o técnico do time? Há quem diga que é a trave do gol.

Na vida quando conseguimos algo fazemos um gol. A forma como conseguimos isso vai dizer se foi um golaço ou se foi um gol chorado. Felizmente no jogo de futebol se a gente ficar com raiva do juiz pode partir pra cima dele e sair agredindo ele verbalmente, na vida o juizão tá lá em cima, se bem que eu tenho minhas dúvidas quanto a isso.

Começa o jogo, a gente vai levando tudo na boa, o jogo numa boa, a vida morna. Ataques e contra-ataques. As faltas que cometemos são as oportunidades que a gente dá pro outro aproveitar e se tiver ginga, ele faz o gol e a gente perde. Na vida quando levamos um carrinho por trás, reclamamos com nós mesmos, o replay não existe. Os comentaristas do jogo da vida são as pessoas medíocres. Cada passo que damos, lá estão os medíocres pra criticar, ou será que rola algum elogio de vez em quando? A gente não sabe lidar com críticas. Prefere sofrer uma overdose de elogios do que um bombardeio de críticas, especialmente aquelas destrutivas. É difícil encontrar alguem sedento por críticas.

Fairplay só no futebol? Nada disso. Na vida é o equivalente à caráter.

O jogo vai rolando e o tempo, passando. Se o time tiver jogadas ensaiadas, grandes chances dele abrir o placar já no primeiro tempo, mesma coisa na vida. A pessoa organizada que se prepara com antecedência para o seu dia-a-dia, vai marcar um golaço já no 1º tempo e nem vai precisar de prorrogação. O técnico de nossas vidas são nossos pais e, diferentemente do mundo da bola, quando eles erram conosco, não dá pra demitir eles e contratar novos técnicos. Os times ingleses quase que alcançam essa vivência, mantém um técnico no cargo por 18 anos (esse é o número que eu me lembro).

Como seria bom se cada dia fosse vivido como um jogo de futebol. No intervalo o treinador iria com nós até o vestiário e daria as instruções para a etapa seguinte. Mexeria no esquema, faria alterações químicas e construiria uma mudança estratégica com o intuito de dar um nó tático no outro treinador. No dia que estivéssemos chateados, o gândula entraria em campo e nos ajudaria a sacudir a poeira e dar a volta por cima, literalmente jogando a bola em nossa direção meio que dizendo: “Bola pra frente!”.

O gol de letra se daria quando arranjássemos ou conquistássemos um grande amor. A torcida, representada pelas próprias moléculas de nosso corpo, as células, as enzimas, os órgãos humanos, iriam comemorar isso como a conquista de um campeonato, nesse caso com disputa de mata-mata. O grito de campeão seria entoado pela torcida até não poder mais. Cada molécula que carregamos conosco é um torcedor, o conjunto delas é a nação que fica ensandecida quando o time não vai bem e enlouquecida quanto faz um gol.

Já não sei mais pra qual lado seguir. A vida tá no 2º tempo, o time tá com quatro jogadores pendurados com cartão amarelo, precisa virar o jogo e o juiz aparentemente tá sendo caseiro. O adversário é catimbeiro e joga um futebol sujo, tem a complascência da torcida, do gândula e quem diria, até de São Pedro. A pressão aumenta de minuto em minuto, o coração bate mais forte. Tá tudo mais acelerado. As sinapses no cérebro estão a 320 km/h. Numa cobrança de escanteio, o goleiro dá um soco na bola que sobra pra vida marcar um gol de trivela no ângulo esquerdo. O que a princípio iria acalmar a torcida, só aumenta a vibração e a tensão. Um empate leva a prorrogação e que pode ocasionar uma definição nos pênaltis.

E então, uma sensação de intensa alegria toma conta. O céu tá mais cinzento do que o asfalto. A chuva cai como se o dilúvio tivesse encontrado vida. De repente, tudo parece fazer sentido. Pegamos a vida pelas rédeas que elas nos proporciona e atacamos. Atacamos em direção ao gol adversário, vamos fazendo fila no oponente, driblando até o juiz e em meio à tudo isso poças de água enormes vão jogando água pra todos os lados possíveis. Só sobrou o goleiro. O goleiro se atira em direção a bola e consegue momentaneamente segura-lá, mas a chuva acaba fazendo a bola se soltar de suas mãos e sobrar livre pra você concluir, literalmente sorrindo em sua direção e quase falando : “Me chutaaaaa!”. Depois você só correu pro abraço.

Fim de jogo. Vitória na vida com um golaço marcado pelo protagonista dela, você.





Onde você estava quando…

18 04 2008

Onde você estava no dia em que achou que o tempo tinha se esgotado? Onde estava quando deu aquele bolo na sua namorada? Onde estava quando o céu escureceu e o frio chegou? Independente de onde esteve, você esteve em algum lugar. Fez um ato, deixou de fazer outro. Falou uma palavra em detrimento de outra. Magoou alguém quando poderia ter dado afeto. Pisou ao invés de dar a mão. Mentiu quando poderia ter dito a verdade. Ficou parado naquela festa quando poderia ter chegado naquela gatinha. Chutou tudo naquela prova quando teve todo o tempo do mundo pra estudar numa boa. Decidiu dormir até babar quando poderia estar fazendo qualquer coisa útil.

Engoliu aquela ofensa quando poderia ter rebatido. Guardou sua raiva pra dentro de si quando poderia ter se exaltado e soltado um grito de guerra. São tantos exemplos, tantas situações que fica até difícil matutar aqui pra sair listando. Qual é o elemento que mais interfere nisso tudo? Orgulho? Timidez? Atitude? Passividade? Comodismo? Um pouco de tudo e um pouco de nada. Em qualquer situação, você tem sim uma parcela de decisão, querendo ou não, está onde está porquê decidiu isso. Mesmo que tenha decidido estar no meio do nada, não fazendo nada. Duas decisões distintas, mas decisões, atos, ações.

Clique com o botão direito do seu braço e vá até a janela de ‘editar’ e clique em ‘desfazer’. A cena é mirabolante: você levanta o seu braço pra cima procurando esse botão para passar a borracha num ato que acabou de ser feito pela sua pessoa, por você. Pena que a vida não tem essa função. Só mesmo agindo pra desfazer uma bobagem feita. Tatuar uma ação por cima da outra. Tá com preguiça de pensar? Isso aí tá mais pra preguiça de viver. Quem adia resolver seus problemas, adia seus prazeres. Alegria é uma decisão que a gente toma. Você decide se quer continuar sendo melancólico ou se quer instantaneamente sorrir e dar uma puta risada de tudo que vier no seu caminho.

Se a vida é algo chato é porque nós a tornamos assim. Lembre-se, a sua vida tá chata, não é a do vizinho e nem do colega de sala. Mas por quê ela tá assim? Felizmente você se colocou nessa situação, então presume-se que também seja capaz de se retirar dela. Acorde. Acorde para o mundo, acorde para viver, acorde pra dar risada, acorde pra lembrar-se o quanto você é inequivocadamente um gênio. Acorde antes que você durma para a eternidade. Uma eternidade que poderia ter deixado um rastro glorioso. A condição é você acordar, é você agir. Por enquanto a porta da eternidade tá fechada, até a medicina descobrir como abri-lá o melhor a fazer é acordar pra vida.

De qualquer maneira, independente da decisão que você tomar, quando te perguntarem aonde a sua cabeça estava naquele ato de insanidade, diga que você não estava com os pés no chão, apenas não deixou de sonhar.





Sua vida vale uma biografia?

15 04 2008

Essa é pergunta que qualquer um que se considere ambicioso deveria se fazer. E vai para os leitores do post. Sua vida vale uma biografia? Eu olho para essa pergunta e mergulho numa infinidade de questionamentos. Como foram os 100 últimos dias? Foram produtivos? Fiz algo de importante? Não consigo listar uma coisa importante que eu tenha feito nos últimos 100 dias. Nem nos últimos 10 dias. E o tempo? Você tem tempo? Tem? Pô, que maravilha. Todo mundo tem. Como você usa ele? Pra dormir? Pra criar novos objetos de decoração?

Análise o que você tem feito nas últimas 24 horas. Se você achar que não fez o suficiente pra considerar-se produtivo, é porque não fez absolutamente nada. Seu senso de urgência é zero. Você vê a vida (a sua vida) passar diante dos seus olhos e continua nesse estado zen, como se tudo estivesse tranqüilo, sua vida não vale nem o parafuso da impressora que imprime o papel usado numa biografia.

Viver em função do dinheiro. Viver em função de uma futura biografia da sua pessoa. Viver em função do outro. Viver em funcão do ócio. Afinal, você vive em função de que? As biografias que você lê de pessoas certas, que estavam no lugar certo, na hora certa, sempre tem algo por trás, mas todas elas trazem algo em comum: o amor ao que fazem. Todavia, o leitor pode argumentar que um monte de gente tem amor ao que faz. É mesmo? Por que então essa gente toda não sai do anonimato? Ok, desnecessário mostrar seus trabalhos ao público, guarde ele na gaveta pelos próximos 500 anos, aí quando você já não tiver mais aqui no planeta, a sua pessoa ganha reconhecimento, genial não? Extremamente idiota.

Pra mim a vida começa quando a gente se toca que o tempo é algo valioso. De um jeito ou de outro essa palavra inocente acaba achando seu caminho nos meus posts. Até a gente se tocar que cada dia é uma oportunidade pra mudar, vamos literalmente jogando oportunidades fora. Tem gente que se toca aos 20, aos 40, mas eles se tocam, caem na real. Mais do que se tocar, é se coçar, fazer algo que a gente sinta (por dentro) que irá levar a gente pra algum lugar.

Que bom seria se as utopias se tornassem realidade, o problema é que o acaso é igual a poeira de nossa casa, o vácuo do espaço, a nossa preguiça; ele simplesmente não sai do lugar. Deixar rolar significa não fazer nada. Acredito eu, não tem nada mais irritante e deprimente do que “olhar para trás” e se arrepender de não ter feito qualquer coisa. A gente vive do passado, exige o futuro e esquece do presente. Se invertessemos a ordem, viveríamos no presente e o resto a gente vislumbra. Mais do que viver, é agir, é ficar pilhado, é entrar num pique maluco, levar aquele clichê de ”viver intensamente” ao pé da letra.

Aí sim, olharemos pra trás e saberemos reconhecer e valorizar um ato que no momento em que foi feito, parecia pequeno, mas por dentro sabemos da enormidade e importância dele para o nosso futuro. O futuro é agora, neste instante, e após essas nove palavras acabou de se tornar, um ato. 





Humano 2.0

14 04 2008

Diretamente da Mãe Natureza, chega à terra a mais nova versão dos humanos, a 2.0 . Nesta nova versão alguns bugs foram corrigidos e mais itens opcionais estarão agora vindo de fábrica. Vamos às novidades: os bugs que forram corrigidos na versão f2.0 são a exclusão do modo cu doce, que vinha desmotivando seus opostos à enviar sinais de interesse, detector de mentiras desativado e o talk-mode agora foi reduzido a 17 mil palavras diárias, algo em torno de 8 mil palavras cortadas, assim nas danceterias dos humanos, estas falarão menos e agirão mais, os humanos da versão m2.0 agradecem. 

De fábrica agora virá para ambas as versões: atitude, compreensão, tolerância, transparência e principalmente decisibilidade, em bom português, não haverá mais enrolação.

Na versão m2.0 também houve correção de alguns bugs: a consciência irá ter peso, como assim? Não é nada abstrato, aqui se faz, aqui se paga. Mas por que só a versão m2.0 terá um peso (verdadeiro) na consciência? Simplesmente porque é a versão que por um lado agüenta esse peso, mas vai ter que mudar de atitude para tirar ele desta. Nada agradável sentir sua conscência ter o mesmo peso gravitacional do planeta júpiter. Outra correção tem a ver com o equilíbrio emocional, foram adicionados alguns elementos químicos, que espera-se, surtam efeito dentro de 2 semanas após alguns beta-testers serem avaliados para a elaboração de relatórios sobre suas neuras e claro, suas curas. 

Em geral, é bobagem separar o Humano 2.0 por M e F, mas como a Mãe Natureza decidiu isso então ela mesma acaba fazendo algumas diferenciações. As correções de bugs e adição de outros itens não vai estar por completa aqui porque é um beta perpétuo, está constantemente sendo atualizado. Os detentores das armações cerebrais dos humanos, me disseram para abrir espaço aqui neste post, para que sugestões fossem colocadas na caixa de comentários. Até alguém sugerir algo, aqui vão alguns pensamentos do autor:

  • De fábrica podiam colocar um dispositivo que detecta um príncipio de pensamento negativo que imediatamente injeta uma dose de pensamento positivo, garantindo assim só um lado de pensamento voltado ao córtex cerebral de qualquer humano em questão.
  • Quanto a independência mental dos humanos, creio que é um pouco arriscado deixar eles pensarem por contra própria, vamos manter este assunto em pauta, decidiremos isso numa reunião dentro de 2 meses para ver como a versão 2.0 está se comportando
  • Fascinante essa idéia de um peso real estar conectado a consciência. Por enquanto a sub-consciência é mal explorada, então deixaremos ela de lado, afinal, através dela que controlamos o que os humanos pensam, eles a têm, nós a controlamos.
  • Por administrarmos a raça humana, creio que seu João deveria acordar e colocar algumas idéias na mesa. Faz 1 milhão de anos que ele está dormindo e deixando os humanos fazer o que eles bem entendem, já está na hora de colocar ordem na casa.
  • Precisamos acabar com essa idiotice deles acharem que existe uma força superior, uma energia invísivel. Alguém tem alguma sugestão? Duzentos anos de ciência e avanços absurdos em todos os campos nos últimos 15-20 anos e temos que ver essa gentalha acreditando e rezando para as paredes.
  • Contratar estagiários, pode até ser uma boa, desde que eles se comprometam a fechar o bico assim que retornarem a figurar entre gente da mesma raça deles.
  • Qualquer humano que lerá isso, vai ficar de queixo caído, achar que foi ou talvez esteja sendo enganado, mas aí que entra o amor pra fazer a fachada de que está tudo bem e que a felicidade está ali, ao seu lado.

A forma de avaliar o conhecimento humano tem de ser mudada. Testar a memorização deles e aplicar isso numa folha de papel é algo no mínimo, ineficaz, improdutivo e extremamente propenso a ser ludibriado pelos mais diversos métodos, entenda-se colagens. A avaliação tem que ser algo opcional, sim, opcional, aqueles que a fazem e provam sua capacidade, ganham bônus, os que preferem não fazer, não acontece nada com eles, passam semestralmente de maneira normal, sofrem uma única avaliação de 6 em 6 meses e esta é feita de maneira oral. 

A avaliação compulsória, além de fazer os aprendizes a gastar seu tempo estudando especificamente para esta única finalidade, limita suas mentes de maneira que o tempo gasto com estudos-recicláveis, poderia ser usado para explorar suas potencialidades e sua criatividade. A humanidade entrou num ciclo vicioso de um precisar provar para o outro que tem determinado conhecimento e, ironicamente, o outro julga-se superior à avaliá-lo, aplicando-lhe um simples número que segundo a convenção humana pode ser considerado baixo ou alto. Espero que o século 21 seja o século das mudanças, da quebra absoluta de paradigmas, senão os administradores ali do canto irão ter que interferir e aí, o bicho vai pegar.





A gente adora uma depressãozinha, né não?

12 04 2008

Vai gente, confessa aí. É muito bom entrar em depressão. Vai dizer que não? Claro que não. Acordar de manhã já com aquela dor nas costas, aí bate o joelho na quina da cama, o dedo mindinho do pé na ponta da porta, entra no banheiro e se olha no espelho com aquela cara de sono e os olhos com as Samsonites embaixo dos olhos, resumindo, aquela cara de quem conseguiria dormir no chão se pudesse.

A gente praticamente se delicia quando entra em depressão, a gente se obriga a ficar triste. Do nada dá aquela vontade de chorar e mesmo quando não há mais lágrimas pra derramar, a gente se olha no espelho enquanto chora meio que esperando que saiam de dentro dele dois braços pra nos confortar, mas aí a gente para de chorar e se olha no espelho só com o que ficou das lágrimas e começa a pensar. Fica meia hora na frente do espelho só pensando em coisas negativas, mágoas do passado, essa visão de se olhar no espelho é como se um estranho te olhasse, mas nesse caso, o estranho também está chorando, reage exatamente da mesma maneira que a gente, eis que você cai na real e vê que é a sua pessoa aí no reflexo.

A gente sai do banheiro meio que procurando algum significado pra tudo aquilo. Procura respostas pra perguntas que nós mesmos criamos. Dúvidas que antes nem deram sinal de vida, agora sequer nos deixam dormir direito. O almoço nesse dia já não é mais o mesmo, a comida fica em segundo plano, a gente fixa o olho em qualquer objeto aleatório enquanto pensa em como se livrar dessa pendenga e voltar (?) a sorrir. Mas o resto do dia continua nesse ritmo, lento, às sombras de um dia bonito. O telefone não toca. Todo mundo saiu pra passear no shopping, encontrar os amigos, sentar no bar pra jogar conversa fora, e você, aí em casa, resfriado, revoltado com o mundo, com o seu mundo.

Nada parece fazer sentido. Uma crise existencial está prestes a se instalar. Até ela esperar, olhamos para o nada, coçamos a cabeça, roemos as unhas e deixamos o tempo se personificar e rir da nossa cara, ou melhor, da nossa passividade. Parece que a gente fica sozinho mesmo em momentos assim, ninguém dá as caras pra dar um ombro amigo. É eu e o mundo, nada mais, nada menos. O passado parece ser algo distante e próximo ao mesmo tempo, o arrependimento bate mais forte nessas horas, a gente se lembra de coisas que não deram certo e geralmente pensa que os culpados foram os outros, nunca nossa pele está no meio do tiroteio.

A depressão se torna um hábito. O hábito de causar na gente espanto e admiração, só que a gente não consegue encontrar admiração nenhuma no meio de todo esse caos, só admirar os efeitos dessa depressão e lembrar que, de vez em quando entrar nesse estado de espírito deixa a gente mais ligado e mais atento ao que a gente fez, ou deixou de fazer, ao que falou e ao que ficou na omissão, mas no fim do dia, a gente toma o comprimido que vai nos fazer dormir e esquecer desses problemas, assistir tv inconscientemente.