Relegião

23 05 2008

A banda que a música mais vai reverberar neste país, é provavelmente a que eu menos conheço. O Legião Urbana manteve acesa uma chama que, a príncipio, proporcionaria esperança para a nação, músicas que tocariam os mais profundos sentimentos, que sempre evocariam um desejo de ver as coisas melhorarem, não só melhorarem, mas melhorarem pra sempre e que sejam constantes, não passantes.

Eu entendo e respeito aqueles que decidiram viver de música, o que eu não entendo e me nego a respeitar são aqueles que encaram música como mero suporte para arrecadar grana à custa do lixo criado.. Certa vez, um artista influente no mundo da música disse: “Se você não tem a intenção de ser maior que os Beatles, qual é o propósito de formar uma banda?”. Em tempos onde, o parâmetro tem nivelamento vindo do mais baixo patamar possível, o que esperar daqueles que pegam como referências para as suas músicas, verdadeiras obscuridades sonoras?

Água pode ser o solvente universal, Música é o sobrevivente universal. Não há como matá-la, embora haja tentativas recorrentes de cometer esse homícido triplamente qualificado, e eu paro por aqui com a pena referida para quem dilacera a música com seus ideais revolucionários pré-históricos. Porra, levem mais a sério isso, pelo amor de deus. Escutem o lixo que vocês produzem e perguntem-se depois de tomar um banho de sinceridade-própria: é no mínimo audível esse som? Tem uma galera que precisa, urgente, comprar semancol ao kilo. Ao contrário do que possa parecer, não vou citar nenhuma banda dessa “parcela” de badernas-de-estúdio.

O que eu queria mesmo, é ver uma relegião, uma volta de uma banda que realmente causasse estardalhaço e desse um novo ponta pé nos hábitos aúdio-lineares que, de tão acostumados a escutá-los, além de aceitarmos ativamente esse ataque a dignidade humana, perdemos a noção do que penetra na nossa cabeça.

Recomeçar, refazer, relançar o paradigma musical. Alcançar um pico de originalidade que vai obrigar outras bandas a ralar, a tomar vergonha na cara e não se render mais às exigências fúteis e estapafúrdias dos executivos-paleozóicos que acham que sabem o que o ouvinte quer escutar. Metralhar os inventores de tendências na canela mesmo, acabar com toda essa pseudo-previsibilidade que, ironicamente, só dá mais credibilidade para aqueles que a seu bel prazer, decidem alavancar a carreira de uma banda que nunca deveria ter saído da garagem, para um público surdo que, não só paga o pato pra ver três patetas munidos de guitarras amplificadas, mas que de tão mal-acostumado, ficou bem à vontade em escutar a escória da música.

Ainda bem que a legião atual de audiófilos, tem a opção de escutar o que quiser, só resta surgir a banda que irá gerar uma relegião em torno dela.

Créditos da imagem: Bersek Warrior





Freio de Mão Eterno

20 05 2008

Que ironia, pesquisadores de Minas Gerais fizeram uma pesquisa sobre o trânsito das principais vias da cidade de São Paulo, porquê como você mesmo sabe, aqueles que poderiam fazer a pesquisa, estão parados no trânsito. 2007 foi o “melhor” ano da indústria automobílistica no país, por melhor, entenda-se que nunca foram vendidos tantos carros em apenas um ano. Mais carros circulando, menos espaço pra circular. Uma hora, este espaço vai se reduzir a tal ponto que, de circulação mesmo, só pedestres e motociclistas.

Nem o rodízio tem adiantado aqui em São Paulo. Basta alguém ter mais de um carro em casa, que todo o conceito do rodízio vai por água abaixo. Vai não, já era. Eu não conheço ninguém que não tenha, no mínimo, dois carros na garagem, eu disse na garagem? Tão na rua mesmo. Aí já viu né. E uma constatação: carros que supostamente tem lugares para cinco pessoas (ou seja, todos), estão quase sempre ocupados por apenas uma pessoa. Não que eu esteja sugerindo uma carona urbana para estranhos, mas é fato, aqueles carros bizonhos que a gente vê como conceituados para o futuro, de apenas 2 ou 3 ocupantes, ocupam menos espaço.

Se São Paulo é alguma coisa por natureza, certamente é caótica. No trânsito então, ou na falta dele, extravasar a adrenalina pra cima de outros motoristas virou algo rotineiro, tanto quanto dar seta e abrir passagem para outro veículo. E nem adianta mais fechar os vidros pra se isolar do barulho, tranqüilamente algum(a) estressadinho(a) irá enfiar a mão na buzina, pegar fita adesiva e não tirar a mão de lá sem ser por uma retro-escavadeira ou por uma serra elétrica. Acumular estresse na ruas e levar isso pra casa é quase o combustível que alimenta a essência do paulistano comum.

Para o engenheiro responsável pela pesquisa, Paulo Resende, a sensação dos paulistanos de que não dá para fugir do trânsito será uma certeza. Durante quatro anos, ele e uma equipe de engenheiros cronometraram o horário de pico em quatro vias da cidade – Avenida dos Bandeirantes, 23 de Maio, Marginais do Tietê e do Pinheiros.

Monitoraram avenidas e rodovias, pontos da cidade supostamente planejados para dar uma certa fluidez ao trânsito. Se nesses lugares a coisa não anda, imaginem nas outras 3000 ruas “comuns” da cidade. Está bem claro qual vai ser o próximo congestionamento de São Paulo: calçadas paradas por causa de um dos dois motivos listados a seguir; excesso de pedestres (bizarro, bizonho, possível) ou mais plausível ainda, carros usando as calçadas pra fugir do trânsito.

Em 2004, o relógio dos pesquisadores registrou que o congestionamento da manhã na Avenida dos Bandeirantes levava 1h30 para se dissipar. No ano passado, já eram 2h35. Na 23 de Maio, a lentidão passou de 1h15 para 2h10. A situação na Marginal do Tietê, que já era preocupante, piorou: as 2 horas evoluíram para 2h43. Na Marginal do Pinheiros, o congestionamento passou de 1h35 para 2h10.

Segundo Resende, o aumento que foi observado no período da manhã está ocorrendo também no pico da tarde. “A distância entre o fim de uma lentidão e o início da outra é de 1h30, em média”, disse. “Daqui a 5 anos, quem sobrevoar as principais avenidas de São Paulo observará a mesma situação das 7 às 19 horas.

Nem adianta mais se programar. O tempo aqui já não ajuda na hora de escolher a roupa, de manhã faz um puta frio que obriga a levar mais de uma roupa por baixo, à tarde um calor insuportável te forçando a carregar toda a tralha e mais, o que não acontecia a 100 anos em Buenos Aires, aconteceu, nevou e não duvido que dê as caras por Sampa daqui algum tempo. Vai ser uma diversão e tanto. Acabou a monotonia do trânsito, aquela coisa de hora do rush já pode ser aplicada aos horários matutinos e vespertinos. É garantia de uma cidade inteira parada, vai render umas fotos bem bacanas.

Fonte da Notícia: Estadão

Créditos da foto: Guilherme Lara Campos





Contatos

18 05 2008

Contatos podem fazer a diferença na vida, contanto que você saiba como manter contato com eles. Os contatos, na maioria das vezes, parecem ser uma enxurrada de gente que só servem pra algo, quando precisamos deles. E o tratamento é igual, de contato pra contato. Manter contato pra uns é ligar de 6 em 6 meses, é chamar pra sair e na real, contato em sua essência é contato de tato mesmo. O contato que você mantém com seus contatos é com tato ou sem? Tato não no sentido de enfiar o dedo no olho do queridão ou da queridona, tato é o nível de aproximação que supostamente existe entre duas pessoas.

Cultivar amizades é complicado, exige tolerância, abetura, entrega, quase um namoro, mas não se assemelha nem um pouco com regar uma plantinha e esperar ela crescer. Eu conheço gente que acha que mijando nas amizades, a coisa vai pra frente. E tome blocos de gesso na cara. Por urinar numa amizade, me refiro ao caso do famoso, uso e abuso e por fim, desuso. Mais que isso, passar na frente de um contato e fingir que nunca rolou nenhum tato. Se o mundo dá voltas ou não, isso não cabe à questão, mas é claro que ele dá voltas, senão não existiria a força da gravidade, força que mantém 100 % da humanidade com os pés no chão, uns 99 % com a cabeça na lua e 1 % de fato com a cabeça e o cerebelo no lugar.

Só que como tá tudo na base do falatório-baixo, no sussurro, tudo em segredo, absoluto mistério e coisas colocadas às sombras, vai confiar em quem? Senão, não há porque manter contato, dessa vez sem tato. Há pessoas que é delas mesmo essa aparente fonte inesgotável de energia, essa galera irradia uma atitude que só quem for muito ranzinza ou rancoroso não é afetado, aos demais, é neste tipo de gente que buscamos conforto, buscamos pegar conselhos que acreditamos serem indispensáveis para o agora, para o antes e para o depois. Sei lá como definir isso: alto astral, bom humor, gente reluzente? Tudo e isso e muito mais, perhaps. É aquele tipo de pessoa que de tanta alegria exalada, faz com que o restante acabe desconfiando que a pessoa esconda por trás daquilo tudo, todos os seus medos e suas incertezas, ou pior, que guarde pra si mesmo e que só em momentos solitários, revele-se triste e incrédula frente à vida.

O jargão de ‘Ninguém é Perfeito’ é usado como álibi pras mais diversas cagadas, pisadas de bola que cometemos com aqueles que justamente mantemos mais contato. É mesmo, ninguém é perfeito? No discurso, realmente, tiro o chapéu pra tanta humildade, mas na prática, dá pra ver claramente uma legião de pessoas perfeitas. Partindo-se do pressuposto, de que de fato existam essas perfeições em formas humanas, chega-se às seguintes conclusões: essas pessoas criaram suas próprias normas, são pessoas que estão felizes o tempo todo, as leis da natureza não se aplicam à elas, são as suas leis que se aplicam ao ecossistema, assim é uma galera que nunca erra, nunca fala bobagens, nunca está triste, nunca pisa em falso, resumindo, perfeição é isso aí. Jamais sair do lugar, do mesmo lugar.

Seja lá quem disse que a perfeição é chata, tinha razão. Mais que chata, é monótona. Monotonia leva à apatia, ao desgosto até pelo desgosto, à famosa cara-de-cu, trocando em miúdos: àquelas pessoas que comumente denominamos como malas. Disto eu concluo que as pessoas malas…um dia foram perfeitas. Feitas para serem malas. Malas por serem perfeitas.

Por essas e outras, mantenhamos contato com a imperfeição, assim manteremos contato com uma feição que sempre nos obrigará a ser melhores por dentro, eu disse por dentro tá? Por fora a gente já tá cansado de ver tantas malas ocupando o lugar de cabeças, mais do que simples malas, são anúncios ambulantes, que pra variar um pouco, jamais conseguem manter o mesmo semblante, afinal sua perfeição está a venda e sabem para quem? Para eles mesmos, os eternos consumidores de suas próprias feições.





Infinidades das Possibilidades

17 05 2008

Algum dia chegaremos lá. Lá é o dia onde a palavra ‘original’ vai deixar de existir. Coisa nova vai ser coisa nula. Será o ápice ou o fim da criatividade humana, da inovação. Chegar não, acho que já chegamos. Tá tudo começando a ficar repetitivo. Cá entre nós, na música, já não vemos nem ouvimos nada de estrondoso faz muito tempo. Não estou dizendo que todos os arranjos de acordes já tenham sido feitos, é praticamente impossível isso, as possibilidades de combinação abrem sempre espaço para mais alguma adição, mas o que percebe-se é um certo “esgotamento” junto à pequenas mudanças que querem dar a impressão de uma novidade estar no horizonte.

Mais do que nunca, é num estalar de dedos que você ouve a banda mais “nova” do momento. Então você descobre que ela não é tão nova assim, talvez os integrantes sejam um punhado de muleques que ainda nem saíram das fraldas e (tentam) fazer som de gente grande, mas a fórmula continua a mesma (pra gente grande também). Pra piorar, suponhamos que a fórmula usada, seja uma das que deram certo no passado, mas fórmula por fórmula e uma hora nem em boteco irão escutá-la. O que salva o abuso de uma “fórmula-musical” são os fãs, acostumados e “exigentes” em seguir escutando uma mesma linhagem sonora, apreciam uma banda que tenha o mesmo DNA musical da antecessora que já acabou ou que brevemente retornará aos palcos com outro nome (fora mercenários-assumidos tipo The Police, Spice Girls [isso é banda?!]).

A adidas por exemplo está relançando modelos de tênis da década de 70, isso já está desde 2005, a nike seguiu e também está toda vintage/retrô. Profissionais de ambas as empresas ganham a bagatela que ganham pra relançar modelos de épocas passadas? Rapadura mole essa. Se algum elogio sobra é para as campanhas publicitárias que me dão uns flashbacks instantâneos de ambas as marcas. Da nike eu me lembro das disputas de futebol dentro de um navio abandonado que renderam várias versões e da adidas, o seu slogan mais recente: impossible is nothing. Fixou na cabeça, literalmente.

Mas e aí, what’s next?

Provavelmente, nada ou quase nada. Não sei nem se é falta de espaço pra idéias malucas que acabam sendo descartadas nas grandes corporações, isso em todas as ramificações culturais com suas derivadas. Será que é questão de problema na gerência/administração, onde seus “mentores” estão com a mente voltada para 1900 e bolinha? Bom, se há de fato idéias novas pipocando e sendo sumariamente declinadas, isso “ninguém” sabe e/ou tem como provar; pra mim, se continuar nesse ritmo (eu gostaria de colocar uma visão meio pessimista da coisa, mas nem seria pertinente), ironicamente, não vai mudar muita coisa. Afinal, tá na moda usar roupas à moda antiga e criar músicas retrô.





Cheiro de Banheiro

16 05 2008

Um dia é feito de momentos. Momentos de calmaria, de pressa, de braveza, de astúcia. Momentos. Para alguns, o momento mais sagrado é da siesta vespertina. Para outros é o da corrida de 8 km diários. Para outros, sagrado mesmo é o momento da caganeira. Cagar requer concentração, silêncio, paz espiritual. É um momento especial, sem dúvida. Vocês acham que eu tô falando merda? Então, permitam-me fazer uma pergunta: qual é o único aroma que faz o próximo desmaiar e passa quase que despercebido por nós (fora alguns casos especiais)? Pois é, o perfume que nós mesmos fabricamos, cheirinho agradável.

É o assunto putrefato que poucos se arriscam a jogar numa roda de conversa. Seja ele em sua forma gasosa ou rock solid. Bem, esta semana durante um seminário em sala de aula com alguns convidados, a coisa tava indo bem, o assunto tava deixando todo mundo ligadasso e então: prauum. Ah é, só os meus ouvidos são tão aguçados a ponto de ouvir essa decolagem do ônibus espacial? Façam me um favor. Começei a rachar o bico com aquilo, me segurei pra não chamar a atenção e, felizmente, consegui. Fui comentar com um pessoal sobre as palestras e claro, como não podia deixar de ser, mencionei que ouvi um efeito especial. Das tantas possibilidades que existem, algumas se destacam: eu sou louco e ouço coisas vindas do além, eu mesmo peidei e não percebi ou todo mundo se recusa a falar sobre isso em público. Acho que a última tá em evidência bem mais que as duas primeiras, entendem o que eu quero dizer? Ela fede mais.

A prova cabal disso está no próprio campus da faculdade. Há banheiros espalhados por todo o campus, mas só alguns seletos são assim, demarcados por calma, serenidade e tantra. Um amigo meu me mostrou alguns e desde então, nunca foi tão bacana cagar fora de casa.

Agora há um banheiro curioso dentre todos esses recantos de glória. Ele é vísivel e invísivel ao mesmo tempo. É um banheiro privativo, com tranca, banhado a ouro, com pia própria, ar condicionado e um espaço relativamente grande se comparado a qualquer box de banheiros tradicionais. Pois bem, ocorre uma cena engraçada todos os dias nas redondezas deste banheiro.

Os que decidem deixar seu regalo naquele banheiro, aparentemente, fazem toda uma estratégia de guerra pra ir de encontro àquela privada magnífica. A cena dá a impressão de alguém estar vigiando a porta de um banco enquanto um assalto é realizado no interior da agência. O cidadão ou cidadã anda em círculos durante uns 30 segundos, olha em volta, verifica se não há ninguém por perto, olha pro teto, olha para o chão, faz cara de quem tá procurando o nada e encontra, o tudo. Tudo isso pra passar pela porta da esperança, que dá de frente pra um imenso vão onde, circulam às vezes, um montão de gente.

Passados 19 minutos e 42 segundos…

Um assobio, alguém procurando o messias em pleno século 21 e a merda flutuando na privada. Não dá pra entender essa galera, eles dão a entender que a bosta deles é invísivel e mais que isso, cheira à Dolce & Gabbana. Foi essa cena que deu de frente comigo, com a diferença de que EU VI O SUJEITO que saiu do recinto, ele também me viu, me olhou com uma cara dividida em dois: “se você tem amor pela vida, dê meia volta e cague em outro lugar”, “olha, eu só mijei lá tá?”. Cheguei no trono e vi que a tampa estava abaixada, depois descobri o significado da caixa de pandora. Digamos que eu vi um lamaçal com uns tubos de pvc durante um segundo e meio até eu ter a moral, a audácia, a ousadia de virar a cara para o lado, pegar um rolo de papel higiênico e TENTAR, eu disse, tentar dar descarga naquele cenário atômico. Bem, só digo o seguinte: a parada entupiu, subiu pela privada e como cachoeira, me perseguiu banheiro afora. E eu? Saí correndo como se tivesse visto o verdadeiro bicho papão vindo me pegar.

PS.: ilustrar este post com imagens seria uma verdadeira sacanagem, usem a imaginação =D





Como a nossa época será escrita…

14 05 2008

nos livros de história. Certamente não será um mar de rosas cheio de esplendor, pra dar e vender, se é que vai ter algo pra vender. Será algo mais ou menos assim:

“Os anos 2000 – ideais à frente de seu tempo, comportamentos atrás.
Neste capítulo iremos tratar de uma época da humanidade na qual, os avanços tecnológicos, se não catapultaram a humanidade para o que ela é hoje, certamente foram cruciais e instantaneamente-nostálgicos para quem viveu e respirou as transformações absurdas e velocíssimas que se sucederam naquele instante. Todos os campos da ciência progrediam cada vez mais, porém o comportamento humano, ou pelo menos uma parcela dele, retrocedeu. Não só retrocedeu como foi responsável por criar um dos maiores paradoxos registrados até hoje.

Naqueles tempos, a palavra tecnologia estava na ponta da língua de qualquer um, mas a aplicação dela pra salvar milhões de vidas, ficou a mercê de políticas regadas à linhas burocráticas e interesses governamentais. Já não se tratava mais da Idade da Pedra, tratava-se de tempos Pós-Modernos, termos comumente usados pra designar o estado avançado no qual a humanidade se encontrava. Exemplos de tragédias evitáveis não faltavam para evitar outras que viriam, Ruanda em 1994 ficou no papel, porquê em menos de uma década, no ano de 2003, na região de Darfur no Sudão, iniciaria-se um “conflito” entre um governo corrupto e autoritário e um povo a mercê dessas virtudes-satânicas.

Sinais evidentes de aquecimento no globo terrestre foram sumariamente ignorados por inúmeros países, mais do que países, pelos próprios cidadãos deles. Estes que, na mais pura e obscena ingenuidade, pensaram que sua parcela de culpa se restringiria ao seu bairro, mas se enganaram e por pouco as futuras gerações que viriam, não sofreram com um inverno nuclear, ironicamente, sem uma bomba deste calibre ter sido usada.

Mais do que em qualquer época, foi nesta onde antigos preconceitos e superstições começaram a cair por água abaixo. A mentalidade ficou mais liberal, mais tolerante com o próximo e cogitou-se estar chegando num momento de paz mundial. Entretanto isso não foi possível, pelo simples fato de que este parágrafo é uma utopia que perdura até os dias atuais. Com tanta overdose de cultura e desenvolvimento urbano, o que se viu foi justamente o contrário ao que se esperava de uma espécie que se considera, civilizada.

A sensação que se tinha naqueles tempos e que vinga até hoje, é a de que quanto mais o ser humano avança, progride, evolui, se expande, seja no campo da arte, música, cultura, física, literatura e qualquer campo científico, mais o bom senso retrocede, dando lugar à um egocentrismo desmedido combinado com uma arrogância que parece estar presente nas moléculas de oxigênio que flutuam pelo espaço. Já não se tratava mais de falta de bom senso das coisas darem certo, era falta de vontade mesmo. Era e continua sendo, resta saber, até quando”.

Como eu gostaria de queimar a minha língua e ler um artigo daqui a 50 anos vendo que a minha geração, fez de fato, algo significativo, tomou a situação pelas rédeas e deu um ponta pé inicial numa reviravolta que se encaminharia para uma só direção: a direção da harmonia social. Tá tudo muito utópico nesse texto, quando na verdade, tirar sarro de assuntos como esse, não só demonstra uma tremenda falta de neurônios, como uma escassez colossal de compaixão pela própria vida e pela do outro.

Me perguntarão: “E você, tem feito o quê pra mudar o que te incomoda?” No momento, tenho refletido sobre tudo isso, é pouco, muito pouco para o que realmente pode ser feito. O que realmente precisa ser feito é as pessoas pararem de pegar os outros como parâmetro para suas próprias fraquezas. Ninguém precisa de ninguém melhor ou pior do que ele pra tomar uma atitude e fazer a diferença, mas já que a insistência parece ser inevitável, então seja você o parâmetro, de preferência do lado positivo da moeda. 





Algo maior que nós? Não.

11 05 2008

Uma bola. Um campo. Um monte de gente. Duas equipes. Dois lados. Duas paixões. Páááááááááára tudo. O argumento que torcedores dos mais casuais, aos mais fanáticos, utilizam para justificar a sua torcida para determinada equipe de futebol é o de que eles gostam de “fazer parte” de algo maior que eles. Sim, de fato o estádio é infinitamente maior que eles, oras bolas. Torcer é saudável? Só para aqueles que se consideram neutros, e afirmam veementemente que torcem para o time que está ganhando, porque de resto um mero jogo de futebol é um verdadeiro teste para cardíacos.

okReza Brava

Futebol, fé e religião andam de mãos dadas. E só ver o nome de determinados clubes. Isso sem falar nas rezas dos torcedores pedindo uma mãozinha lá de cima. São três pilares que sustentam um esporte a mais de um século (desconsiderem aquela teoria de que na China se jogava futebol há 2000 anos atrás, ela é tão relevante quanto o campeonato de par-ou-ímpar organizado no Turcomenistão em 1957), só que futebol é o esporte mais “globalizado” que existe hoje, mas vai muito além disso. É mais forte que a própria natureza.

As pessoas param de fazer seja lá o que estiverem fazendo e assistem religiosamente os jogos do clube do coração (ainda quero saber o processo de escolha disso). Atritos em relacionamentos acontecem devido a um monte de motivos, mas o campeão mesmo é o esporte da pelota (deve ser, puro chute). E por que não, ficar desempregado da noite pro dia? Tem dias que finais de campeonatos caem em datas assim, marotas. Uma entrega de trabalho ou uma reunião superimportante na empresa no mesmo horário do jogo. O papel da superstição tem uma importância gigante nisso tudo. Cada torcedor pensa que se ele não for no estádio, seu time pode acabar perdendo, mais que isso, usa certos artefatos pra justificar a vitória ou a derrota, uma camiseta específica, uma cueca específica O_o .

Ao término de um jogo todos ficam sabendo do placar e das duas uma : ou estão berrando ou estão lamentando, mas não pára por ai, precisam ler o que os “especialistas” acharam do jogo, precisam saber da análise pós-jogo. Mesmo isso não sacia a sede por mais e mais informações, mas por que porra? Porquê todos são especialistas. Especialistas da paixão.

Em época de Copa do Mundo o negócio é bíblico, digno de milagres acontecerem de 4 em 4 anos e se algum matulazém estivesse vivo para testemunhar o que este torneio causa nas pessoas, no mundo e até mesmo no clima da terra certamente veria que os milagres dos dias atuais ganham de 10 a 0 dos milagres divinos. O centro gravitacional do planeta pára de girar para assistir a Copa. Inimigos se tornam melhores amigos durante um mês inteiro. Tabus são quebrados. Vidas são salvas. Gargantas deliram. E todos se concentram para passar suas energias aos seus guerreiros, para que estes possam fazer o que nações inteiras almejam : soltar o grito de É CAMPEÃO.

Créditos para o belo momento capturado: flickr de Seeding-Chaos





Vida Electron

8 05 2008

É isso mesmo? Se você leva a vida a sério, a vida te leva a sério? Se você despreza ela, o tratamento é recíproco? Bem provável que sim. Que tal encarar essa coisa chamada vida da perspectiva em terceira pessoa? Ou melhor, a vida é essa terceira pessoa, é o seu holograma. Esse holograma depende de você, porque lhe pertence, embora lhe observe. Desemboca-se então no seguinte plano: a pessoa que faz acontecer, acaba por desencadear processos externos à ela, estes que, por sua vez, não aconteceriam se a pessoa não mostrasse resultados.

É mais ou menos como engrenagens. Você corre atrás de coisas que aparecem na sua vida e “do nada” acaba vendo resultados (aparentemente externos à você). Mexeu em uma engrenagem, que mexeu em outras. Simples assim. Você se mexe, mexe com os outros. Puramente causa e efeito.

Na minha visão, quanto mais resultados você atinge, mais você fica quite com a vida. Você já nasce devendo pra vida, pra sua vida e, ao longo desta, vai equilibrando os atos até um ponto onde após tantos feitos terem sido concretizados (ai que a gente chega na parte batuta da teoria) que a vida acaba devendo pra você. É o déficit da vida com a pessoa que carrega ela no peito e claro, superávit da pessoa com a vida.

A vida te deve. E pra pagar essa dívida, coisas boas vão acontecendo. Tudo parece estar maravilhoso e equilibrado, até que alguma coisa acaba dando errado. Voltamos à estaca zero e, novamente, a pessoa precisa mostrar resultados pra poder usufruir de “coisas que caem do céu”.

Mas quem é credor hoje em dia? Quem é que tem tanto crédito com a vida? Certeza que há muita gente. Sem sombra de dúvida também há uma legião que tá devendo, e muito, pra poder sair resmungando. É assim que a sociedade tá dívidida hoje em dia. Credores e devedores. Credores que só ganham crédito com a vida e o mais engraçado, fazem isso de maneira natural, tá no dia-a-dia deles, nos mais pequenos hábitos e singularidades que esta parcela de pessoas apresentam. E na contramão, os devedores que só reclamam da vida, quando na verdade nem têm esse direito.

Credores ficando cada vez mais credores, devedores quase tendo sua alma indo pra hipoteca.

Os credores creditam sua buena vida à inúmeras características intrínsecas a eles, devedores, claro, tem listas colossais de fraquezas e influências externas que não os auxiliam em nada. Hábito e rotina tem parcela de culpa ou de mérito? Eu acho que talvez dependa de outro fator. Talvez os credores nem tenham consciência de que estão numa rotina e por isso não se dão conta de que seus hábitos são saudáveis e incrivelmente, rentáveis, lhes rende crédito. O devedor tem o hábito de ser preguiçoso, aí não tem erro, vai entrar de cara na rotina e vai ver ela dando bom dia pra ele todo santo dia.

Nada é mais díficil do que parece ser depois que é feito. Eu percebi isso faz um tempo, mas mesmo assim deixei muita coisa pra fazer e se eu depender dos meus costumes, vo ficar em dívida com a vida por um bom tempo, assim como a maioria da população [santa ingenuidade em se confortar com o outro estar tão fudido quanto, ou se está mais, alegrar-se com isso]. Se eu vendesse promessas, viveria de remessas, pena que todas são, às avessas.





Músicas de Consultório

6 05 2008

Dizem as más línguas que o certo é ir ao dentista de 6 em 6 meses. Não lembro qual foi a última vez que eu fui, foi no Século XXI, isso sim. O que eu lembro é que da última vez que eu fui, fiquei esperando na sala de recepção durante 2 horas para ser atendido. O problema nem foi esse tempo absurdo de espera, tempo incomum; diga-se de passagem, o problema está na trilha sonora que me guiou nessa viagem ao inferno. Trilha sonora? É provavelmente a trilha mais esburacada, suja e turva que eu e meus canais auriculares já assimilaram. Tá mais pra campo minado. O responsável por essa tortura auditiva? Um tal de Kenny G.

Kenny fucking G galera. Não sei porque eu não chutei o aparelho de DVD pra fora da janela, mas eu sei de uma coisa: tava no modo de repeat. O cabeludão tocando pra um pessoal que está a beira de seus iates. Clube do Iate. Puta que pariu. Foram duas horas de estupro. Foi algo assim de outra galáxia. Nem o Diabo ouve Kenny G. É o som mais chato que algum ser humano criou. Ganha de música de elevador e supermercado disparado. Já ouvi muita música boa em supermercado, anos luz à frente de qualquer lixo que o cara produziu.

Acredito que seja a primeira forma de tortura criada por alguém sem de fato, tocar na pessoa. Ah, toca sim viu, toca profundamente a alma. Ouvir Kenny G é quase um suicídio. Ouvir durante duas horas é pedir pra comprar uma passagem pra seja lá a cidade que esse cara mora, viajar até lá e fazer uma simples pergunta para o cara: você comeu merda na hora que compunha? Aliás, como você ousa chamar isso de música, de composição? Isso é o apocálipse cara. Não vai ter nenhuma música de filmes de terror tocando quando o mundo acabar, vai ser a sua quinta sonata tocando em alto e bom som.

sala de espera
Eu não me incomodoria em ouvir Kenny G numa sala de espera dessas

Só eu não sabia que daria de frente com o apocálipse, dentro de um consultório dental. Por que o título desse artigo está no plural? Deve ser porquê o cara ganha de lavada. Não tem exceção. Agora, como é que a dentista consegue escutar esse cara? Quem agüenta ouvir isso? Não é possível. Juro. Aposto que ela bota esse som para os pacientes ouvirem, com o simples intuito de ir anestisiando eles mentalmente. É uma anestesia mesmo, dá tilt na cabeça. É a típica profissão que eu agradeço pela existência, já me tirou de várias pendengas, mas se na banca da faculdade julgassem os formandos pelo gosto musical, sei não hein. Cabeças iriam rolar. Se bem que, os próprios membros de uma banca julgadora devem ter a mesma linha de raciocínio.

Porque, no fim do dia, não há lógica em ouvir Britney Spears numa sala de espera, a não ser que você seja um sadomasoquista que ama dor de dente e não vê a hora de dançar ao som de ”Ooops I did it again”, quando esse ooops se refere ao fato da dentista ter retirado um ciso errado e evidentemente, não foi pela primeira vez que ela fez isso.

Se os consultórios deviam consultar algo, antes de qualquer coisa, é o gosto musical de seus pacientes. Haja paciência.

Créditos da imagem: flickr do fotoarnelee 





O que escrever

5 05 2008

O flagrante: falta de inspiração para escrever um texto para o blog. A injúria: ter o que escrever, mas não ter conteúdo para preencher o texto. Afinal, não há lógica pra sair publicando bobagens, certo? Claro, mas e quando acontece aquela situação de simplesmente não se ter mais o que escrever? Falta de inspiração ou falta de assunto? Falta de habilidade ou falta de vontade? Com certeza absoluta, alguma coisa falta, mas veja só: até quando não tenho sobre o que escrever, escrevo.

Em tempos de mídia sensacionalista (que já é assim há um bocado de tempo) o cidadão se vê num beco sem saída. Aliás, tem saída sim. Escrever. Escrever sobre não ter o que escrever. Porque, no começo do blog, parece como um namoro, um tesão absurdo em escrever tudo que der na telha. Do nada, esse tesão some de vista e nos deixa a mercê de que? A mercê do vazio, do nada, do vácuo. Não é de se impressionar com o jornalismo pós-moderno, literalmente caçando notícias. Ok, é a profissão dos caras, caçar notícias, fatos, o que seja e divulgar esses acontecimentos. Entretanto, o que eu tenho reparado é que quando não há o que noticiar, qualquer coisa que apareça na frente deles se torna (eles tornam) tempestade em copo d’agua.

Vazio

Mantém o noticiário ocupado por um bom tempo, dá uma margem de tempo para caçar outras notícias mais interessantes e assim reinicia o ciclo. Talvez seja óbvio o que eu tô falando, mas ressaltar isso não custa nada. E nem estou me referindo à seção de celebridades, já que os únicos que celebram alguma coisa são os paparazzi e os jornalistas que publicam algum furo e ganham uma grana em cima.

Não dá pra levar a sério uma revista que coloca o Ronaldo Fenômeno na capa. Porra, vocês me juram que não tem nada mais importante pra publicar na capa? Tá, o infeliz fez (ninguém sabe o quê [e eu continuo não me importando]) sabe se lá o que com dois travestis, oras bolas, deixa ele resolver a mutreta. Nah, claro que não. Os especialistas de plantão tem que criar teorias quânticas, metafísicas e transcendentais pra explicar o que aconteceu. Como é que um acontecimento (se é que pode ser chamado disso) desse naipe consegue render mais do que duas linhas de texto? É né, já rendeu a sétima linha aqui.

Pelo jeito eu não sou o único que não tem o que escrever.

Boa Gordo.

PS.: Um bode chega pro outro e diz:
- E ae meu, vamo bodiar?
- Bodeia meu.
- Beleza, bodiei.

iLustração do post, Flickr da Pâmela