Comum

30 09 2008

Aceite o fato: 99.99 % das pessoas que habitam este planeta são comuns. Isso significa que, quando a população mundial atingir 7 bilhões, apenas 700 mil farão parte das incomuns. São as 700 mil que farão a diferença, são as que já estão fazendo. Não se engane, ninguém nasce incomum, todos nascem comuns. Ser comum é o quê afinal? Ser comum é viver a vidinha ordinária vista nos filmes, lida nos livros, escutada nas músicas. Por vidinha ordinária, entenda-se, vidinha seguida à risca, com as mesmas rotinas, as mesmas pessoas, as mesmas mudanças, a mesma mentalidade, a mesma passividade, o mesmo conformismo com relação à tudo, a mesma preguiça de pensar, a mesma preguiça de fazer diferente.

É aceitar a comunidade. “Direito meu!” Mas é claro que é direito seu viver do jeito que vive. Mas estas pessoas são as mesmas que procuram ver graça em tudo, ver algo e falar que faz sentido. Bem, para estas pessoas, ser comum faz sentido, há uma graça toda em volta disso. A graça de ser comum, a tentação de sempre se igualar ao outro. Dar bola para aquele papo mercadológico de que a tentativa de se diferenciar, acaba igualando todos? Bobagem. Se fosse assim, seríamos todos um bando de débeis mentais. Ah, mas, não somos? Somos, por pura escolha. Por nossa condição humana de merda, por essa invenção desse maldito termo que conforta os fracos, afirmando categoricamente que é certo aceitar tudo de bom grado, de bandeja.

Isso aqui não é nenhum manifesto à favor de uma vida difícil. Não é manifesto favorável a nada. Não é nem um manifesto. É só um conjunto de idéias variadas que eu andei tendo, nada além disso. Se fosse um manifesto, seria para manifestar idéias aleatórias a respeito de tudo. Talvez seja isso que falta na mentalidade das pessoas, aleatoriedade. O aleatório é o inverso do comum. O comum cai sempre no mesmo. Dificilmente isso acontece no acaso. O acaso trata-se de tentar, experimentar, dar a cara à bater. O comum é a conformidade com tudo, é a cara pálida, é colocar o córtex cerebral em estado de hibernação eterna e mais que isso, viver nesse estado e se orgulhar da própria estupidez. E quando houver repressão à imbecilidade? Faça piadas disso, claro! Assim você legitima que ser imbecil é jóinha (faça sinal de positivo com o dedão, sorria e vá pra puta que te pariu).

Pessoas comuns não sabem lidar com pessoas comuns. Pessoas comuns não sabem lidar com pessoas incomuns. Pessoas incomuns não sabem lidar com ninguém, nem com elas mesmo. Pessoas comuns nem sabem quem elas mesmo são. Aliás, lidar com pessoas comuns é uma merda. É mais fácil lidar com uma porta, posso jurar de braços abertos isso. A porta sabe qual é sua função, abrir/fechar, isolar um som, dar privacidade, e servir de porta. A pessoa comum não sabe que porra está fazendo nesse mundo, não sabe o que falar, nem porquê fala, porquê só sai merda. A pessoa comum decidiu ser comum, caralho! Decidiu não ir atrás de conhecimento, decidiu ficar estagnada mentalmente e saturada fisiologicamente (não só no lado óbvio, vale ressaltar).

Por que uma porta que não tem poder de decisão exerce sua função com maestria? Por que uma pessoa comum que tem poder de decisão, deixa ao acaso sua mentalidade medíocre manter-se assim? Vá a merda, não especificamente àquela que sai de sua boca, mas a que lhe atingirá a cara um dia. E tenho dito quantas vezes precisar.





Modos de Vida

26 09 2008

O ano ainda nem começou e já estamos em 2009. O dia nem terminou e já estamos há três dias a partir de agora. Porra, em que tempo estamos afinal?! Os benditos pacotes de Reveillon (embora eu pronuncie como Revelión) e ainda me pergunto, porque fim-de-ano chama-se reveillon? Não sei, me lembra uma marca de cosméticos, algum creme ultra-mega-super-avançado de rejuvescimento de pele. Ser uma pessoa adiantada significa ser alguém antenado, à frente dos outros, porque, em tese, consegue prever como serão seus dias, ou melhor, algumas horas dos próximos dias.

Pacotes de viagens começam a ser vendidos ano passado para o ano depois desse. Viagens então, são uma aventura à parte. Toda essa vontade, essa necessidade insaciável de conhecer outros lugares e só. Esse papo furado de conhecer outras culturas não cola mais, ninguém conhece uma cultura em duas semanas. Nem em três. Mas é a sede por novidade que nos motiva a fazer essas loucuras. Fazer hora extra pra poder viajar no fim do ano, ou no meio, depende do lugar e da estação. Estação do ano ou de trem? Ambas. Na europa cai bem no verão. Trombar com estranhos (?!) no metrô, no avião, a caminho do aeroporto, na van. Mas peraí um pouquinho, estranhos? Que foi, eles são tão estranhos assim? São tipo, gente de outro planeta? Falta algum dedo, alguma orelha? Não né? Estranhos por que então? Boa fucking pergunta. Nenhuma fucking resposta.

Um ser que se auto-denomina um puta dum comunicador, com medo, ansiedade e pré-julgamentos frente à seres de mesma espécie, região, bairro, até de sua própria casa. É um ser ridículo, ou melhor, ele está sendo ridículo, e não é de hoje. Isso vem acontecendo desde que o mundo é o mundo e a gente não é mais gente. O que é ser gente hoje em dia? Ter conhecimento ordenado em bibliotecas neurais? Ser gente significa ter lido obras completas? Pra mim a palavra, ou melhor, a raíz da palavra têm relação com gentileza. Gentileza é bem mais do que segurar a porta do elevador para o vizinho que chegou do trabalho, ou dizer um muito obrigado à um garçom de restaurante. Esses tipos de ações são o mínimo do mínimo. Gentileza tem a ver com atitudes de ceder, de dar sem pedir (nem pensar em receber) nada em troca. Ser gentil está diretamente ligado à ser uma pessoa que surpreende a outra de maneira positiva, ênfase nesse positivismo aí, tão em falta hoje em dia.

Mas gentileza não basta, têm que ter sutileza. Destreza. Leveza. Grandeza. Moleza. Certeza que o modo de vida que estamos levando é o certo, mas eu quero que alguém me diga, me fale como dá pra parar pra pensar sobre isso. Geral não têm tempo pra nada, nem pra pensar. Pensar? Ação penosa, dolorida, pensar dá coceira. Pera um pouco que tá coçando aqui. Ufa, passou, mas eu continuo pensando. Remoendo a quantidade de asneiras que eu soltei hoje. Prevendo que picuinhas vão me entreter amanhã. Chega desse papo furado. Chega.

Por isso que vida chama vida e não volta. Pegamos a passagem só de (v)ida, não de volta. Por isso que temos um monte de idas vindas, todas inexoravelmente ligadas à vida. Uma pena que essa ida seja recheada de obstáculos. Um desses obstáculos é saber lidar com nossos semelhantes, o que, pensando bem, é a coisa mais contraditória, não? Oras, se eles são iguais à nós, porquê ter dificuldade em lidar com eles? Começo a achar que eles dificultam a coisa propositalmente. Começo a achar que esqueci que tenho uma consciência, vo levar ela pra dar uma volta, quem sabe não refresco a cabeça e deixo as coisas no lugar.





Review: Festival Orloff Five @ Via Funchal

8 09 2008

A proposta: reunir bandas dos mais variados gêneros num único festival, não dezoito, apenas quatro. Quando vi a escalação, fiquei feliz pensando: “Vanguart, hmmm, vai ser interessante ver eles abrindo, já vem chamando minha atenção faz tempo. Melvins, não sei nada sobre os caras, só sei que são a banda favorita do Kurt Cobain. Plasticines, o que pode dar errado com quatro gatas francesas? Nada. The Hives, banda-de-um-hit-só. Vai, vamo que vamo.”

Bom, primeiramente eu queria elogiar a organização do festival. Em tempos onde assistir shows é supostamente mais agradável e organizado do que ir a um estádio para ver um jogo de futebol; (e eu sei bem que a maioria dos festivais organizados no Brasil são feitos de maneira porca, extorsiva e desrespeitosa) a organização por trás do Orloff deu show. Tirando o fato de um Pastel custar 18 reais e uma Água 4 reais, no quesito pontualidade dou nota mil para a organização.

Cravadamente às 19h00, o Vanguart entra no palco e dá um show maior ainda para o pequeno público que, nas palavras de Hélio: “….veio cedo para prestigiar a banda”. Efeitos simples no telão, show puro no palco. Só tenho elogios para a banda de Cuiabá. Sem firulas, sem teatrinho, sem aditivos sintéticos, fizeram o melhor show da noite, disparado. Eu devia ter ido embora depois do show deles, que, ironicamente, durou menos do que todos os outros pseudo-shows.

A idéia de que uma banda é a favorita do ex-líder do Nirvana não ajudou muita coisa. Supreendi-me por exatos 10 segundos ao ver que o Melvins usa duas baterias e claro, dois bateristas durante seu coco. Sim, porque é isso que saiu dos amplificadores Marshall que esses sanitários nucleares tocaram/cantaram(?). Não sei, não dá pra descrever o estilo desses caras. Show de merda! Só não cagaram o festival porque entraram e saíram do palco no horário previsto. Até nunca! Tchau merdins!

Em seguida, sobem no palco as quatro francesinhas mais bonitinhas da face da terra, inhas não, bem gostosas as quatro, lindas de morrer (mesmo!). O som do Plasticines até que me cativou, mas a vocalista já está dando sinais de que vive em estado senil. Repetiu nada menos do que três vezes o fato da banda ser de Paris e um monte de verbos e substantivos proferidos em francês que me fizeram ficar com cara de bulhufas. Muita energia, muita gritaria e um estilo….dançante, é isso que combina com elas. All in all, tão de parabéns.

A banda mais esperada da noite bem que podia se chamar The Hypes. Por que eu digo isso? Pelo simples fato do Via Funchal lotar a partir do show do Plasticines de maneira absurda. Essa lotação provocou duas coisas, além do desconforto óbvio e da visão limitada ocasionada pela invasão maciça, isso botou na cabeça dos filhos-da-puta-de-plantão que casa lotada significa, fumaça liberada. Até aquele ponto, vi uma cena se repetir umas 30 vezes: um(a) vagabundo/vagabunda acendia um cigarro na pista e era escoltado por um segurança para uma área onde pudesse continuar fumando, ou, largar e apagar o cigarro na metade do caminho.

Sim, pela primeira vez na história, presenciei repressão contra fumantes no Via Funchal. Avisos sobre a proibição do fumo não faltavam no local, mas pra variar, sempre haverá gente escrota que vai ignorar os avisos e dar uma de mallandra. Infelizmente, só deu certo durante as duas primeiras horas do festival, mas já é um começo, espero que se alastre esse tipo de atitude de casas de espetáculo, ainda mais com a lei que o Governador José Serra está só esperando ser aprovada.

O vocalista do The Hives engoliu um rádio, um vibrador e um cabo de força que sai do cu e nunca sai da tomada. Carismático e arrogante, mais arrogante do que carismático, o cara conseguiu sim a simpatia da platéia com seus malabarismos aleatórios, com suas poses, enfim, com todos aqueles movimentos malucos e aquela fala estoneante. Mesmo assim, achei bem fraco o show de uma banda que se auto-intitula algo maior do que a “mera”, salvação do rock.

Saldo da noite: Vanguart deixou no chinelo todas as bandas que tocaram depois. Fim de papo.