Review: KT Tunstall @ Via Funchal

16 10 2008

Acabo de chegar do Via Funchal completamente em êxtase. Catarse absoluta. Purificação auditiva, mental e espiritual em cerca de 2 horas de show. Completamente sensacional o show de dona KT Tunstall. Que vozeirão, que energia, que mulher! Puta que pariu! E não vou seguir aquela linha de “não tenho palavras para descrever o show”, ah tenho sim viu.

Terminada a primeira canção do show “Little Flavours”, já deu pra sentir o entrosamento absurdo da banda. Sim, sim, química-musical é algo básico, mas a banda dela é mais que isso. Tanto que por mim, já dava o show por encerrado nessa primeira música. Já tava dando triplos mortais carpados com viradinhas na primeira música.

Não lembro do setlist, mas dá pra destacar alguns pontos interessantes do show: ela se soltou extraordinariamente desde o princípio do show, falou um monte com o público, disse que os brasileiros não são tímidos, pediu pra galera se soltar, enfim, carisma do início ao fim.

O público era formado por gente de todas as idades, de todos os tipos, de todas as tribos. Não vi nada padronizado aí hoje. Aliás, o Via Funchal padronizou sua burrice em organizar shows, isso sim. Quem em sã consciência bota a galera pra sentar num show desses? Sim, em nome do lucro tudo faz sentido. Mas, vai segurar uma renca de gente que não tem nem aí pra regras de etiqueta? Foi só ecoarem os primeiros acordes do ultra-blaster-mega-hit “Suddenly I See” pra que gente de outros setores invadissem a platéia “vip”. Aí não teve jeito, galera que pagou os olhos da cara pra ficar na bolha, teve que engolir a onda-humana invadindo “seu” espaço.

Teve de tudo no show: músicas agitadas, músicas calmas, momentos de atenção, momentos de loucura, tudo muito bem dosado, na hora certa, do jeito certo, com a cantora certa. É o tipo de show que não há uma pessoa que não saia com um sorriso estampado no rosto. Falo isso abertamente: melhor show do ano disparado. Kate Tunstall deu um show mesmo, um show de como se faz um show. Chega por hoje.





Bote Pra Fora Sua Essência

5 10 2008

Pare de ser outra pessoa. Bote pra fora sua alma, pra fora dessa escuridão, faça isso amanhã. Porquê, amanhã, o Oasis lança seu 7º álbum de estúdio. Intitulado de ‘Dig Out Your Soul’, o álbum já me cativou por completo. Inteiramente. Ouvir música é mais que um hábito pra mim, é alimento sonoro para meus ouvidos e esse bolachão-virtual tá bem fresco. Já é atemporal esse álbum.

DOYS  
Não dá pra fazer uma resenha normal sobre esse álbum, porque esse álbum não é normal!

Em 2005, ano de lançamento de Don’t Believe The Truth, inúmeros sinais (músicas, óbvio) indicavam o que vinha pela frente. O Oasis decidiu sentar com calma e se deixar levar pela experimentação. O resultado não poderia ter sido melhor: temos aí uma obra autêntica, digna dos melhores álbuns de todos os tempos. Ao contrário da crítica que fica procurando picuinhas inspiratórias em cada faixa do álbum, eu acho que a inspiração vem do frescor de novidade procurado pela banda. As muralhas sonoras de Be Here Now voltam mais pesadas do que nunca em The Shock Of The Lightning, faixa que transparece um rock cru sessentista e como o próprio Noel diz: “É basicamente o demo”. A música guia a si mesma com riffs estoneantes e um solo de bateria absolutamente genial sai das mãos de Zak Starkey (atualmente em turnê com o The Who). Dá um pique essa música que vo te falar viu, meu cérebro dá uns mosh pits dentro da minha cabeça.

Mas a faixa que abre o álbum trata-se de Bag It Up. O DNA dessa música carrega um groove aqui, batidas militares acolá, mas pragmaticamente falando é um rock dos bons. Passa uma mensagem de : “Sem enrolação, vam’bora!”. Liam e Noel fazem um dueto no começo da música dando uma tônica espetacular, e então, o mais novo dos Gallaghers “monopoliza” provisoriamente os vocais e dá seu grito de guerra:

“Lay your love on the fire when you come on in
I got my hee-bee-jee-bees in a hidden bag
Tell me what you desire and we’ll bag it up, highhhh”

A voz de Noel Gallagher em Waiting For The Rapture? I-N-A-C-R-E-D-I-T-Á-V-E-L. Não dá, não dá pra saber daonde o cara me tira esses vocais. Riffs espertos, percussão cardíaca e vocais viaaaajaaaadoooos e uma levada que sacode todos os seus órgãos. É Noel esperando por uma ruptura, você desejando que a música continue indefinidamente. Acredito fielmente que nesses 3 minutos e pouco a ruptura aconteceu nos 10 primeiros segundos.

The Turning é surpreendente. Começa sutilmente com um piano, passa aquela sensação que predomina nos dias de hoje, da monotonia e conformismo e de repente explode violentamente num desabafo pedindo esperança para aqueles que querem mudar. E que mudança hein, que virada, pelamordedeus. Se algo vira é minha cabeça, de cabeça pra baixo. E depois pra cima com a faixa que vem em seguida.

Falar o quê de I’m Outta Time? Muita coisa, a começar pela melodia da música. Que coisa mais linda, juro! E as letras da música: afrodisíacas, diferentes, honestas, verdadeiras. Acho que nenhuma definição consegue “rotular” essa música, os rótulos fogem da música, tem medo de atrelarem-se a ela. O Liam alega ter demorado 9 anos pra compor ela, mas em se tratando de Liam, sabemos com quem estamos lidando, não é mesmo? Sabendo ou não, pouco importa, o que importa é que o cara fez uma música maravilhosa. Certamente o Gem ajudou ele, mas e daí? O Oasis trabalhou pela primeira vez em estúdio como banda mesmo, sem pressões contratuais ou quaisquer picuinhas.

Falling Down é a prima de Part Of The Queue? Talvez, mas como a primeira faixa está na família “porra-louca” do novo álbum, explosões constantes caracterizam ela enquanto é agraciada com o letrista mais fantástico da década de 90 e agora de 2000. Sua primeira aparição se deu como remix dos Chemical Brothers, parecendo uma música pertinente a baladas e tal. Contrastando e superando, a versão de estúdio é arrebatadora. Quem diria que o colapso do sistema e da religião se daria simultaneamente?

“We live a dying dream 
If you know what I mean 
All that I’ve ever known 
It’s all that I’ve ever known

(…)

I tried to talk with God to no avail 
Calling my name from out of nowhere 
I said “If you won’t save me, please don’t waste my time” 

É inacreditável a quantidade de reviravoltas que tomam conta desse álbum (e que tomarão conta dos ouvintes dele). Não dá pra prever nenhuma faixa, não dá, simples assim. To Be Where There’s Life gruda com cola industrial o baixo de Andy Bell em seus ouvidos e Liam descola isso nessa temática indiana dada por Gem na música de sua autoria. É nos grooves onde há vida e é lá onde você deve dar uma bicuda na sua alma pra ela dar às caras, pelo menos assim reitera o Sr. Liam.

Ao mesmo tempo que o álbum parece fluir de maneira esplêndida, cada faixa passa a sensação de ser inerente à sua própria identidade sonora. Cada faixa acaba sendo apreciada de fato, individualmente. Ao fim da escuta completa da obra, catarse. Nada mais, nada menos. Uma sensação de completude toma conta e você cai na real: o novo álbum é como aqueles filmes cultuados, você assiste a primeira vez, fica todo maravilhado, mas sabe que vai ter que vê-los denovo para contemplar toda a mágica presente; com Dig Out Your Soul não é diferente, cada audição é uma nova audição e um novo catarse.

Que tal mergulhar seus neurônios numa frigideira à pleno vapor e depois jogar eles em nitrogênio liquido? Talvez assim você compreenda The Nature Of Reality. O cara que pediu uma guinada nortista do astro mais reluzente do universo, agora diz que a natureza é algo que simplesmente esconde-se dentro de sua mente. Vá entender as idéias inspiradas em Estocolmo, levadas a Los Angeles e mixadas em Londres. Andy Bell, psicodelia e Liam Gallagher deixarão você escolher a interpretação, mesmo com a existência de tempo e espaço estarem apenas em sua mente. Sua mente que aguarda ansiosamente a próxima vertente do rock mundial.

A última faixa não encerra o álbum. Pelo simples fato dele ecoar como um jato decolando na cozinha de sua casa. Tal responsabilidade do contexto colossal do álbum encontra ressonância em Soldier On com Liam mandando ver nos vocais como eu nunca vi (e ouvi). Mundinho assolado por problemas, gente dando opinião demais, foda-se geral. No fim das contas, todos perecerão. Siga sua vida, mande todos às favas e faça o que tem de ser feito. Ouça Dig Out Your Soul até a exaustão inexistente.

Não dá pra explicar, somente escutar cada faixa reverberar. O clima da primeira à última música é de uma mágica rolando solta em cada milésimo de segundo que transcorre. Dig Out Your Soul dá a impressão de ter sido feito como um elástico, puxa daqui um pouco mais, puxa de lá um pouco menos. É o álbum que puxou só os pontos positivos de cada álbum feito até aqui. Experimentação feita com experiência, muita experiência. E o Oasis sabe como ninguém experimentar, por mais contraditório que pareça. Sem mais, nem menos.