O que nos preenche, afinal?

28 05 2009

Tirando os ossos, os órgãos, o sangue, as sinapses, e todos os elementos físicos, palpáveis, alguma coisa nos faz sentir que estamos dentro de um corpo. Os olhos abertos, comandos neurais fazendo com que braços se mexam e dedos digitem. A sensação de vida, de respiração. Tudo a gente já conhece, mas ainda não sabe explicar exatamente o que junta isso tudo, o que dá liga. Talvez seja uma grande bobagem tentar ”explicar” algo que talvez nem precise ou deva ser explicado. Talvez ninguém consiga explicar.

Mas, bobagem por bobagem, eu prossigo com o pensamento de que há algo mais que nos preenche e que é invisível. Esse preenchimento é o próprio ‘eu’ ou talvez algo diferente. Não acredito que seja a alma. Tenho a impressão de que um estalo nos preenche. Durante 6-8 horas esse ‘estalo’ repousa. No instante em que acordamos, ‘plack’, dedos estalam e a gente acorda. O corpo é tomado por esse estalo,  todos os sistemas iniciam seu funcionamento, os olhos se abrem, o coração bate, os pulmões inspiram o ar misturado com a poeira e poluição da cidade.

Ressalto que não creio que esse ‘estalo’ esteja relacionado à alma ou até mesmo à religião. Mesmo sendo algo invisível e imperceptível, a gente vê esse preenchimento nas pessoas diariamente. Alguma coisa preenche os corpos. A abertura dos olhos de uma pessoa representa a vida em si. Quando sentimos o contexto do mundo à nossa volta, nos sentimos vivos, ou seja, é quando enxergamos a atmosfera ao nosso redor que a sensação de vitalidade entra em funcionamento. Do mesmo modo que muita gente toma como algo ‘pronto’, ‘natural’ o fato de água sair da torneira, das tomadas elétricas em casa estarem disponíveis, muita gente encara a vida como ela é, como se fosse uma coisa automática, é pá pum, tamô vivo, vamo viver, pá pum, vida, corre-corre, liga-liga, chora, desliga, sorri, liga denovo, dorme, acorda, vive, anda, abraça, beija, chuta, xinga, anda, vive.

Querendo ou não, estamos “presos” dentro de um corpo. É esse ‘estamos’ que eu tô tentando explicar, definir, chegar em alguma conclusão plausível. O corpo não nos prende. Na psicanálise chamariam a sensação de estar vivo de ‘consciência’. A lucidez de perceber que você está vivo (e como você percebe da maneira mais nítida? abrindo os olhos). A gente dá vida a um corpo e não o oposto. Por isso que a gente representa esse ‘recheio’, esse ‘preenchimento’. Tudo isso pode estar soando meio maluco, e se for, paciência. Ou impaciência para os que não a compraram. Ela está a venda, não sabiam? Eu estou vendendo.

Aquelas histórias de pessoas que ‘perderam a cabeça’ talvez expliquem um pouco os ‘atos falhos’, os ‘colapsos’ e comportamentos que fogem da norma. Por que? Pois passam a impressão do corpo ter adquirido, por pouco tempo, uma certa independência sobre si mesmo. Perder a ‘consciência’ é perder o controle sobre as ações do corpo, e conseqüentemente, o preenchimento do mesmo. A involuntariedade do corpo existe diariamente, em vários locais do corpo, mas não se manifesta tanto no cérebro, e quando se manifesta, faz a pessoa ‘perder a cabeça’.

Entendo que órgãos e veias, artérias e tecidos nos preencham fisicamente. Além de outros inúmeros aparelhos. Mas, peguem o computador por exempo, com hardware e software. A analogia é óbvia. Pois bem, que software nosso querido corpo está rodando? O homosapiens modern times 3.0? Nada de software talvez. É outra coisa. Se alguém descobrir, me fale.





No meio do caos paulistano…um oásis…um OASIS

10 05 2009

O trocadilho-clichê se faz cada vez mais necessário, embora seja questionável. A caminho do Anhembi, chuva. É o tempero divino para um show colossal. Toda vez que o Oasis toca em São Paulo, chove. E o silogismo não erra. Mas o que é um show do Oasis em Sampa, afinal? A pergunta que tem de ser feita é para quem é o show? Para o fã comum da banda, é um show à parte. Para o fã xiita, a coisa ganha proporções enormes. Mas farei uma descrição geral.

Antes de entrar no show propriamente dito, eu vou citar uma frase que eu desconheço o autor: “Na vida em sua totalidade, somando todos os momentos alegres, verdadeiremente felizes, uma pessoa é feliz, em média, 10 minutos.” Seja lá quem tenha dito isso, ele deve ter lá sua razão, mas não em se tratando do OASIS. Verdade seja dita, os shows deles não são longos (tem em média 21 músicas, em cerca de 2 horas de show, às vezes mais, às vezes menos).

Quem vai ao show do OASIS sabe o que vem pela frente. Não tem essa de ir no show deles por curiosidade. Quem vai ao show esperando ver pirotecnia, palhaçadinha, circo, pulinhos, artificialidade, sai com cara de cu. O show do OASIS é o que se espera de um show: ouvir ao vivo as músicas dos álbuns. Ver os caras em carne e osso. O show do OASIS é só uma parte dessa religião, modo de vida, you name it. Fã que é fã acompanha a banda pela internet, conhece os jargões deles, a história da banda, as intrigas, o marketing, e acima de tudo, as entrevistas, que costumam ser geniais.

Parece que, de uns tempos pra cá, ficou mais fácil ver um show deles. Vieram em 1998, 2001 (somente Rio), 2006 e 2009. O show amarra todos esses elementos ou chuta eles bem pra longe. Para os que não dão o braço a torcer e invariavelmente, torcem o nariz para a banda, o show do Oasis é algo previsível. Talvez por essa previsibilidade, qualquer coisa que fuja do roteiro é uma explosão. Eu conheço bem a história da banda. E a única vez na qual eles “fugiram” do roteiro foi exatamente em São Paulo, há três anos. A banda toca um repetório idêntico durante boa parte da turnê e aos poucos vai mudando. Mas não de um show para outro. Foi o que aconteceu. E aconteceu à pedido dos fãs de todo o Brasil que compareceram ao Estacionamento do Credicard Hall em 2006.

O show terminou sua primeira parte e a banda foi ao backstage descansar por cinco minutos. Ao saírem do palco que ouvia-se na platéia era ‘Supersonic! Supersonic! Supersonic!’. Dito e feito. Zak Starkey retorna para seu posto e inicia a batida. Nem o mais cético dos fãs acreditaria no que estava acontecendo. ‘Guess God Thinks I’m Abel’ foi trocada. O resto todo mundo já sabe.

O show de ontem foi dentro do esperado. Nenhuma surpresa, até porquê, não se espera nenhuma. Ou seja, curte-se o que é tocado e fim de papo e de garganta. Não dá pra falar depois do show. Tá todo mundo rouco (e louco). Com os neurônios vibrando. O sangue correndo mais rápido. No estacionamento, todos os carros com as janelas abertas tocando músicas de todos os álbuns no talo. A volta pra casa é uma mistura alegre da sensação de dever cumprido com um certo vazio existencial. A banda continuará suas atividades pelo verão europeu. Pegarão vôos, trens, busões, apresentarão suas composições e suas pessoas, suas feições para mais platéias e pelo jeito, também cumprirão seu dever.

No que depender de mim, o próximo show tende a ser diferente. Veremos.





Oasis dentro de 6 horas no palco

9 05 2009

E o friozinho na barriga deu as caras. Felizmente. O absurdo do absurdo. Espetacularmente o show vai ser fodástico. E quem não entrar em transe é porque já entrou. E tenho dito. E tenho feito. FUI





O Dia Sacro

2 05 2009

Dentro de uma semana, a banda que cativou meus ouvidos aos 7 anos de idade fará sua terceira apresentação em São Paulo. Fosse 1998 eu estaria pululando, contando os dias, as horas, os segundos. Passados 11 anos, a ansiedade com relação a banda parece que desapareceu. Talvez reapareça no dia do show. O friozinho na barriga e nas mãos que faz a gente se sentir completamente diferente. Um friozinho que comumente a gente evita, mas que no dia 9 de Maio, quero sentir, meio que pra justificar a adoração à música, à boa música. Reina uma sensação de tranqüilidade misturada com uma vontade absurda de já ver as luzes se apagando e o show começando. É um show com um repertório já conhecido. É uma procissão. O roteiro a legião sabe de cor e salteado, e nem por isso deixa de comparecer. Pelo contrário, é num show do Oasis que muitas lembranças vem à tona. Nem vou entrar no mérito da banda ser importante para o cenário atual da música ou não. Pra mim a importância é intrínseca e imensa.

Há três anos atrás a Brasil 2000 FM reprisou o show de 1998. Estava ouvindo ele a caminho do estacionamento do Credicard Hall, rumo ao primeiro show deles. Não há muito o que falar. Quando você cresce rodeado de inúmeras possibilidades sonoras e guarda sua atenção majoritária a uma banda específica, seu comportamento é um reflexo do que foi escutado ao longo dos anos. Mesmo que de forma inconsciente. Não há muito de erudito no Oasis, mas há tudo de verdadeiro. Se o som deles pudesse ser colocado num dicionário, ficaria com a seguinte definição: “Som pra sair chutando portas e mundos, sair correndo feito louco, gritando como se fosse o primeiro e último grito ao mesmo tempo e muita, mas muita auto-confiança, afeto, reflexão e paixão, muita paixão”.

O fato é que sábado que vem será sacro do começo ao fim. Do fim ao começo. Cada minuto do dia vai ter algo a mais. E eventualmente, o friozinho na barriga vai aparecer. A entrada ao evento, a atmosfera do lugar, as pessoas passando, os técnicos montando o palco para que cinco pessoas façam o que sabem fazer e deixem trinta mil sem saber. Tudo vai fazer sentido. Todos os sentidos irão dar saltos quadruplos. Todo esse exagero vai fazer sentido. Não há muitos dias na vida que fazem tanto sentido quanto ir ver um show do Oasis. Mas esse dia em especial sempre torna as coisas meio colossais. Épicas. E não há nada que possa mudar isso. Vai ser um dia foda. Genial. E eu farei parte disso tudo, de corpo e alma.