Vai gente, confessa aí. É muito bom entrar em depressão. Vai dizer que não? Claro que não. Acordar de manhã já com aquela dor nas costas, aí bate o joelho na quina da cama, o dedo mindinho do pé na ponta da porta, entra no banheiro e se olha no espelho com aquela cara de sono e os olhos com as Samsonites embaixo dos olhos, resumindo, aquela cara de quem conseguiria dormir no chão se pudesse.
A gente praticamente se delicia quando entra em depressão, a gente se obriga a ficar triste. Do nada dá aquela vontade de chorar e mesmo quando não há mais lágrimas pra derramar, a gente se olha no espelho enquanto chora meio que esperando que saiam de dentro dele dois braços pra nos confortar, mas aí a gente para de chorar e se olha no espelho só com o que ficou das lágrimas e começa a pensar. Fica meia hora na frente do espelho só pensando em coisas negativas, mágoas do passado, essa visão de se olhar no espelho é como se um estranho te olhasse, mas nesse caso, o estranho também está chorando, reage exatamente da mesma maneira que a gente, eis que você cai na real e vê que é a sua pessoa aí no reflexo.
A gente sai do banheiro meio que procurando algum significado pra tudo aquilo. Procura respostas pra perguntas que nós mesmos criamos. Dúvidas que antes nem deram sinal de vida, agora sequer nos deixam dormir direito. O almoço nesse dia já não é mais o mesmo, a comida fica em segundo plano, a gente fixa o olho em qualquer objeto aleatório enquanto pensa em como se livrar dessa pendenga e voltar (?) a sorrir. Mas o resto do dia continua nesse ritmo, lento, às sombras de um dia bonito. O telefone não toca. Todo mundo saiu pra passear no shopping, encontrar os amigos, sentar no bar pra jogar conversa fora, e você, aí em casa, resfriado, revoltado com o mundo, com o seu mundo.
Nada parece fazer sentido. Uma crise existencial está prestes a se instalar. Até ela esperar, olhamos para o nada, coçamos a cabeça, roemos as unhas e deixamos o tempo se personificar e rir da nossa cara, ou melhor, da nossa passividade. Parece que a gente fica sozinho mesmo em momentos assim, ninguém dá as caras pra dar um ombro amigo. É eu e o mundo, nada mais, nada menos. O passado parece ser algo distante e próximo ao mesmo tempo, o arrependimento bate mais forte nessas horas, a gente se lembra de coisas que não deram certo e geralmente pensa que os culpados foram os outros, nunca nossa pele está no meio do tiroteio.
A depressão se torna um hábito. O hábito de causar na gente espanto e admiração, só que a gente não consegue encontrar admiração nenhuma no meio de todo esse caos, só admirar os efeitos dessa depressão e lembrar que, de vez em quando entrar nesse estado de espírito deixa a gente mais ligado e mais atento ao que a gente fez, ou deixou de fazer, ao que falou e ao que ficou na omissão, mas no fim do dia, a gente toma o comprimido que vai nos fazer dormir e esquecer desses problemas, assistir tv inconscientemente.