Tirando os ossos, os órgãos, o sangue, as sinapses, e todos os elementos físicos, palpáveis, alguma coisa nos faz sentir que estamos dentro de um corpo. Os olhos abertos, comandos neurais fazendo com que braços se mexam e dedos digitem. A sensação de vida, de respiração. Tudo a gente já conhece, mas ainda não sabe explicar exatamente o que junta isso tudo, o que dá liga. Talvez seja uma grande bobagem tentar ”explicar” algo que talvez nem precise ou deva ser explicado. Talvez ninguém consiga explicar.
Mas, bobagem por bobagem, eu prossigo com o pensamento de que há algo mais que nos preenche e que é invisível. Esse preenchimento é o próprio ‘eu’ ou talvez algo diferente. Não acredito que seja a alma. Tenho a impressão de que um estalo nos preenche. Durante 6-8 horas esse ‘estalo’ repousa. No instante em que acordamos, ‘plack’, dedos estalam e a gente acorda. O corpo é tomado por esse estalo, todos os sistemas iniciam seu funcionamento, os olhos se abrem, o coração bate, os pulmões inspiram o ar misturado com a poeira e poluição da cidade.
Ressalto que não creio que esse ‘estalo’ esteja relacionado à alma ou até mesmo à religião. Mesmo sendo algo invisível e imperceptível, a gente vê esse preenchimento nas pessoas diariamente. Alguma coisa preenche os corpos. A abertura dos olhos de uma pessoa representa a vida em si. Quando sentimos o contexto do mundo à nossa volta, nos sentimos vivos, ou seja, é quando enxergamos a atmosfera ao nosso redor que a sensação de vitalidade entra em funcionamento. Do mesmo modo que muita gente toma como algo ‘pronto’, ‘natural’ o fato de água sair da torneira, das tomadas elétricas em casa estarem disponíveis, muita gente encara a vida como ela é, como se fosse uma coisa automática, é pá pum, tamô vivo, vamo viver, pá pum, vida, corre-corre, liga-liga, chora, desliga, sorri, liga denovo, dorme, acorda, vive, anda, abraça, beija, chuta, xinga, anda, vive.
Querendo ou não, estamos “presos” dentro de um corpo. É esse ‘estamos’ que eu tô tentando explicar, definir, chegar em alguma conclusão plausível. O corpo não nos prende. Na psicanálise chamariam a sensação de estar vivo de ‘consciência’. A lucidez de perceber que você está vivo (e como você percebe da maneira mais nítida? abrindo os olhos). A gente dá vida a um corpo e não o oposto. Por isso que a gente representa esse ‘recheio’, esse ‘preenchimento’. Tudo isso pode estar soando meio maluco, e se for, paciência. Ou impaciência para os que não a compraram. Ela está a venda, não sabiam? Eu estou vendendo.
Aquelas histórias de pessoas que ‘perderam a cabeça’ talvez expliquem um pouco os ‘atos falhos’, os ‘colapsos’ e comportamentos que fogem da norma. Por que? Pois passam a impressão do corpo ter adquirido, por pouco tempo, uma certa independência sobre si mesmo. Perder a ‘consciência’ é perder o controle sobre as ações do corpo, e conseqüentemente, o preenchimento do mesmo. A involuntariedade do corpo existe diariamente, em vários locais do corpo, mas não se manifesta tanto no cérebro, e quando se manifesta, faz a pessoa ‘perder a cabeça’.
Entendo que órgãos e veias, artérias e tecidos nos preencham fisicamente. Além de outros inúmeros aparelhos. Mas, peguem o computador por exempo, com hardware e software. A analogia é óbvia. Pois bem, que software nosso querido corpo está rodando? O homosapiens modern times 3.0? Nada de software talvez. É outra coisa. Se alguém descobrir, me fale.
