Ética, Pirataria e Ganância

7 06 2008

Já se foi o tempo em que artistas ganhavam dinheiro pela venda de seus álbuns. Tudo começou há uma década atrás quando o termo pirataria ainda nem era conhecido. Trocas de arquivos entre usuários comuns eram realizadas minimamente, o motivo? A conexão era lenta e os softwares disponíveis não davam a margem gigante que dão hoje para realizar uma troca imensa de músicas, filmes, livros e aplicativos.

Para a Indústria Fonográfica, aquilo não representava uma ameaça, era um nicho restrito ainda, isto é, não era uma distribuição massificada de material audiovisual. Demorou um século inteiro para que o feitiço virasse contra o feiticeiro. Em 2000 aparece na internet o Napster, programa simples de compartilhamento de arquivos, aliado à ele, conexões de internet já bombando em países como EUA e Japão com velocidades nas casas dos megas. Tiro e queda pra realizar a transferência de músicas e futuramente, álbuns inteiros.

Deve ser impagável a conversa entre os executivos de alto escalão de gravadoras e associações que defendem elas:

- Sergião, escuta cara. A cada segundo que passa a gente tá perdendo um caminhão de dinheiro. Não só nós como os artistas contratados sob nossa tutela. Tá escutando o barulho do dinheiro evaporando?

Sérgio, inconformado, segura a respiração, pega um guardanapo e cospe a azeitona que estava mastigando para fora.

- Desculpa, não ouvi direito, não entendi direito e muito menos compreendi do que diabos você está falando.
- Pô cara, lembra daquele software que um muleque criou há duas semanas atrás?
- O que tem?
- Tá disseminado pela internet, virou uma epidemia e neste exato momento, cinqüenta mil transferências de arquivos estão sendo realizadas por minuto. Músicas avulsas, álbuns inteiros, resumindo…
Roberto olha Sérgio abandonando o corredor, indo em direção ao banheiro.

Eu resumo então o que tem acontecido nestes últimos 8 anos. A massa-internética (Classes A, B, C, D, E [ou seja, todas]) consome tudo que a Indústria Cultural queria ela consumisse, com a diferença de que consome sem pagar nada. Tá putinha agora né? Não tá gostando nada de ver aqueles rios de dinheiro secarem. Vale o mesmo para os putos que compõem uma canção chula e acham que merecem ganhar dinheiro o suficiente para sustentar a 15ª geração de suas famílias.

A putaria não termina por aí. O mallandro que hoje baixa um programa para produzir sua música, editar seu vídeo, manipular suas imagens; tá todo sorridente enquanto desfruta dos recursos e das potencialidades que esses aplicativos oferecem. Publicando músicas nos MySpace da vida, vídeos no YouTube e imagens tratadas no Flickr; quer ganhar reconhecimento, fama e se possível lucrar em cima disso. De vilão a herói em alguns cliques no mouse? De um artista-verdadeiro para um verdadeiro-hipócrita, reclamando agora sobre seus “direitos autorais” sobre a sua obra.

E o trampo que os programadores tiveram para desenvolver o software? “Ah, eles já ganham o suficiente com o preço que as comphanias colocam nas prateleiras”. Ganhar em cima dos outros é fácil, quero ver ganhar em cima de si mesmo, em cima de sua própria ética, de seus princípios. Ou será que é muita ingenuidade eu achar que dona-consciência vai bater na porta um dia?

Por que um software custa 10 mil reais enquanto outro, de mesmas funções e recursos, vem na faixa? Pura mentalidade dos criadores. Não que uma equipe de programadores tenha que sair de mãos abanando após meses ou até anos desenvolvendo um programa, mas quando a unidade é vendida na casa dos 5 digitos, aí temos um problema. Ah, mas quem sou eu pra botar etiqueta de preço? Certamente não preciso ser um executivo de uma grande desenvolvedora de softwares pra saber que, se um programa custar 10 mil reais, ele irá ser pirateado e distribuido livremente pela rede, enquanto o seu concorrente que tem o código fonte aberto para qualquer mortal, é constantemente aprimorado e infinitamente mais atualizado em relação a bugs e outros erros que surgem no uso diário dele.

Bem, então a internet é a grande culpada disso. Os usuários dela são meros anjos (e demônios).





Humano 2.0

14 04 2008

Diretamente da Mãe Natureza, chega à terra a mais nova versão dos humanos, a 2.0 . Nesta nova versão alguns bugs foram corrigidos e mais itens opcionais estarão agora vindo de fábrica. Vamos às novidades: os bugs que forram corrigidos na versão f2.0 são a exclusão do modo cu doce, que vinha desmotivando seus opostos à enviar sinais de interesse, detector de mentiras desativado e o talk-mode agora foi reduzido a 17 mil palavras diárias, algo em torno de 8 mil palavras cortadas, assim nas danceterias dos humanos, estas falarão menos e agirão mais, os humanos da versão m2.0 agradecem. 

De fábrica agora virá para ambas as versões: atitude, compreensão, tolerância, transparência e principalmente decisibilidade, em bom português, não haverá mais enrolação.

Na versão m2.0 também houve correção de alguns bugs: a consciência irá ter peso, como assim? Não é nada abstrato, aqui se faz, aqui se paga. Mas por que só a versão m2.0 terá um peso (verdadeiro) na consciência? Simplesmente porque é a versão que por um lado agüenta esse peso, mas vai ter que mudar de atitude para tirar ele desta. Nada agradável sentir sua conscência ter o mesmo peso gravitacional do planeta júpiter. Outra correção tem a ver com o equilíbrio emocional, foram adicionados alguns elementos químicos, que espera-se, surtam efeito dentro de 2 semanas após alguns beta-testers serem avaliados para a elaboração de relatórios sobre suas neuras e claro, suas curas. 

Em geral, é bobagem separar o Humano 2.0 por M e F, mas como a Mãe Natureza decidiu isso então ela mesma acaba fazendo algumas diferenciações. As correções de bugs e adição de outros itens não vai estar por completa aqui porque é um beta perpétuo, está constantemente sendo atualizado. Os detentores das armações cerebrais dos humanos, me disseram para abrir espaço aqui neste post, para que sugestões fossem colocadas na caixa de comentários. Até alguém sugerir algo, aqui vão alguns pensamentos do autor:

  • De fábrica podiam colocar um dispositivo que detecta um príncipio de pensamento negativo que imediatamente injeta uma dose de pensamento positivo, garantindo assim só um lado de pensamento voltado ao córtex cerebral de qualquer humano em questão.
  • Quanto a independência mental dos humanos, creio que é um pouco arriscado deixar eles pensarem por contra própria, vamos manter este assunto em pauta, decidiremos isso numa reunião dentro de 2 meses para ver como a versão 2.0 está se comportando
  • Fascinante essa idéia de um peso real estar conectado a consciência. Por enquanto a sub-consciência é mal explorada, então deixaremos ela de lado, afinal, através dela que controlamos o que os humanos pensam, eles a têm, nós a controlamos.
  • Por administrarmos a raça humana, creio que seu João deveria acordar e colocar algumas idéias na mesa. Faz 1 milhão de anos que ele está dormindo e deixando os humanos fazer o que eles bem entendem, já está na hora de colocar ordem na casa.
  • Precisamos acabar com essa idiotice deles acharem que existe uma força superior, uma energia invísivel. Alguém tem alguma sugestão? Duzentos anos de ciência e avanços absurdos em todos os campos nos últimos 15-20 anos e temos que ver essa gentalha acreditando e rezando para as paredes.
  • Contratar estagiários, pode até ser uma boa, desde que eles se comprometam a fechar o bico assim que retornarem a figurar entre gente da mesma raça deles.
  • Qualquer humano que lerá isso, vai ficar de queixo caído, achar que foi ou talvez esteja sendo enganado, mas aí que entra o amor pra fazer a fachada de que está tudo bem e que a felicidade está ali, ao seu lado.

A forma de avaliar o conhecimento humano tem de ser mudada. Testar a memorização deles e aplicar isso numa folha de papel é algo no mínimo, ineficaz, improdutivo e extremamente propenso a ser ludibriado pelos mais diversos métodos, entenda-se colagens. A avaliação tem que ser algo opcional, sim, opcional, aqueles que a fazem e provam sua capacidade, ganham bônus, os que preferem não fazer, não acontece nada com eles, passam semestralmente de maneira normal, sofrem uma única avaliação de 6 em 6 meses e esta é feita de maneira oral. 

A avaliação compulsória, além de fazer os aprendizes a gastar seu tempo estudando especificamente para esta única finalidade, limita suas mentes de maneira que o tempo gasto com estudos-recicláveis, poderia ser usado para explorar suas potencialidades e sua criatividade. A humanidade entrou num ciclo vicioso de um precisar provar para o outro que tem determinado conhecimento e, ironicamente, o outro julga-se superior à avaliá-lo, aplicando-lhe um simples número que segundo a convenção humana pode ser considerado baixo ou alto. Espero que o século 21 seja o século das mudanças, da quebra absoluta de paradigmas, senão os administradores ali do canto irão ter que interferir e aí, o bicho vai pegar.