Já se foi o tempo em que artistas ganhavam dinheiro pela venda de seus álbuns. Tudo começou há uma década atrás quando o termo pirataria ainda nem era conhecido. Trocas de arquivos entre usuários comuns eram realizadas minimamente, o motivo? A conexão era lenta e os softwares disponíveis não davam a margem gigante que dão hoje para realizar uma troca imensa de músicas, filmes, livros e aplicativos.
Para a Indústria Fonográfica, aquilo não representava uma ameaça, era um nicho restrito ainda, isto é, não era uma distribuição massificada de material audiovisual. Demorou um século inteiro para que o feitiço virasse contra o feiticeiro. Em 2000 aparece na internet o Napster, programa simples de compartilhamento de arquivos, aliado à ele, conexões de internet já bombando em países como EUA e Japão com velocidades nas casas dos megas. Tiro e queda pra realizar a transferência de músicas e futuramente, álbuns inteiros.
Deve ser impagável a conversa entre os executivos de alto escalão de gravadoras e associações que defendem elas:
- Sergião, escuta cara. A cada segundo que passa a gente tá perdendo um caminhão de dinheiro. Não só nós como os artistas contratados sob nossa tutela. Tá escutando o barulho do dinheiro evaporando?
Sérgio, inconformado, segura a respiração, pega um guardanapo e cospe a azeitona que estava mastigando para fora.
- Desculpa, não ouvi direito, não entendi direito e muito menos compreendi do que diabos você está falando.
- Pô cara, lembra daquele software que um muleque criou há duas semanas atrás?
- O que tem?
- Tá disseminado pela internet, virou uma epidemia e neste exato momento, cinqüenta mil transferências de arquivos estão sendo realizadas por minuto. Músicas avulsas, álbuns inteiros, resumindo…
Roberto olha Sérgio abandonando o corredor, indo em direção ao banheiro.
Eu resumo então o que tem acontecido nestes últimos 8 anos. A massa-internética (Classes A, B, C, D, E [ou seja, todas]) consome tudo que a Indústria Cultural queria ela consumisse, com a diferença de que consome sem pagar nada. Tá putinha agora né? Não tá gostando nada de ver aqueles rios de dinheiro secarem. Vale o mesmo para os putos que compõem uma canção chula e acham que merecem ganhar dinheiro o suficiente para sustentar a 15ª geração de suas famílias.
A putaria não termina por aí. O mallandro que hoje baixa um programa para produzir sua música, editar seu vídeo, manipular suas imagens; tá todo sorridente enquanto desfruta dos recursos e das potencialidades que esses aplicativos oferecem. Publicando músicas nos MySpace da vida, vídeos no YouTube e imagens tratadas no Flickr; quer ganhar reconhecimento, fama e se possível lucrar em cima disso. De vilão a herói em alguns cliques no mouse? De um artista-verdadeiro para um verdadeiro-hipócrita, reclamando agora sobre seus “direitos autorais” sobre a sua obra.
E o trampo que os programadores tiveram para desenvolver o software? “Ah, eles já ganham o suficiente com o preço que as comphanias colocam nas prateleiras”. Ganhar em cima dos outros é fácil, quero ver ganhar em cima de si mesmo, em cima de sua própria ética, de seus princípios. Ou será que é muita ingenuidade eu achar que dona-consciência vai bater na porta um dia?
Por que um software custa 10 mil reais enquanto outro, de mesmas funções e recursos, vem na faixa? Pura mentalidade dos criadores. Não que uma equipe de programadores tenha que sair de mãos abanando após meses ou até anos desenvolvendo um programa, mas quando a unidade é vendida na casa dos 5 digitos, aí temos um problema. Ah, mas quem sou eu pra botar etiqueta de preço? Certamente não preciso ser um executivo de uma grande desenvolvedora de softwares pra saber que, se um programa custar 10 mil reais, ele irá ser pirateado e distribuido livremente pela rede, enquanto o seu concorrente que tem o código fonte aberto para qualquer mortal, é constantemente aprimorado e infinitamente mais atualizado em relação a bugs e outros erros que surgem no uso diário dele.
Bem, então a internet é a grande culpada disso. Os usuários dela são meros anjos (e demônios).