Duas coisas tão distintas com tantas semelhanças. Afinal, que relação a vida tem com o futebol? Que lições pode-se tirar de ambos? Pontos em comum? Traços característicos? Um monte de coisa. Num jogo há dois tempos, cada um de 45 minutos. Eu encaro a vida igualzinho. Os primeiros 45 anos e os outros 45 com a prorrogação. Se o juiz for generoso com a prorrogação do 1º e 2º tempo a gente chega nos 120, faltas, paradas técnicas, catimba do advesário, repoisção de bola. Assim como no futebol, na vida a gente exerce uma função dentro de campo (no mundo real), somos atacantes, volantes, zagueiros, alas, meias, centro-avantes? Ou somos o técnico do time? Há quem diga que é a trave do gol.
Na vida quando conseguimos algo fazemos um gol. A forma como conseguimos isso vai dizer se foi um golaço ou se foi um gol chorado. Felizmente no jogo de futebol se a gente ficar com raiva do juiz pode partir pra cima dele e sair agredindo ele verbalmente, na vida o juizão tá lá em cima, se bem que eu tenho minhas dúvidas quanto a isso.
Começa o jogo, a gente vai levando tudo na boa, o jogo numa boa, a vida morna. Ataques e contra-ataques. As faltas que cometemos são as oportunidades que a gente dá pro outro aproveitar e se tiver ginga, ele faz o gol e a gente perde. Na vida quando levamos um carrinho por trás, reclamamos com nós mesmos, o replay não existe. Os comentaristas do jogo da vida são as pessoas medíocres. Cada passo que damos, lá estão os medíocres pra criticar, ou será que rola algum elogio de vez em quando? A gente não sabe lidar com críticas. Prefere sofrer uma overdose de elogios do que um bombardeio de críticas, especialmente aquelas destrutivas. É difícil encontrar alguem sedento por críticas.
Fairplay só no futebol? Nada disso. Na vida é o equivalente à caráter.
O jogo vai rolando e o tempo, passando. Se o time tiver jogadas ensaiadas, grandes chances dele abrir o placar já no primeiro tempo, mesma coisa na vida. A pessoa organizada que se prepara com antecedência para o seu dia-a-dia, vai marcar um golaço já no 1º tempo e nem vai precisar de prorrogação. O técnico de nossas vidas são nossos pais e, diferentemente do mundo da bola, quando eles erram conosco, não dá pra demitir eles e contratar novos técnicos. Os times ingleses quase que alcançam essa vivência, mantém um técnico no cargo por 18 anos (esse é o número que eu me lembro).
Como seria bom se cada dia fosse vivido como um jogo de futebol. No intervalo o treinador iria com nós até o vestiário e daria as instruções para a etapa seguinte. Mexeria no esquema, faria alterações químicas e construiria uma mudança estratégica com o intuito de dar um nó tático no outro treinador. No dia que estivéssemos chateados, o gândula entraria em campo e nos ajudaria a sacudir a poeira e dar a volta por cima, literalmente jogando a bola em nossa direção meio que dizendo: “Bola pra frente!”.
O gol de letra se daria quando arranjássemos ou conquistássemos um grande amor. A torcida, representada pelas próprias moléculas de nosso corpo, as células, as enzimas, os órgãos humanos, iriam comemorar isso como a conquista de um campeonato, nesse caso com disputa de mata-mata. O grito de campeão seria entoado pela torcida até não poder mais. Cada molécula que carregamos conosco é um torcedor, o conjunto delas é a nação que fica ensandecida quando o time não vai bem e enlouquecida quanto faz um gol.
Já não sei mais pra qual lado seguir. A vida tá no 2º tempo, o time tá com quatro jogadores pendurados com cartão amarelo, precisa virar o jogo e o juiz aparentemente tá sendo caseiro. O adversário é catimbeiro e joga um futebol sujo, tem a complascência da torcida, do gândula e quem diria, até de São Pedro. A pressão aumenta de minuto em minuto, o coração bate mais forte. Tá tudo mais acelerado. As sinapses no cérebro estão a 320 km/h. Numa cobrança de escanteio, o goleiro dá um soco na bola que sobra pra vida marcar um gol de trivela no ângulo esquerdo. O que a princípio iria acalmar a torcida, só aumenta a vibração e a tensão. Um empate leva a prorrogação e que pode ocasionar uma definição nos pênaltis.
E então, uma sensação de intensa alegria toma conta. O céu tá mais cinzento do que o asfalto. A chuva cai como se o dilúvio tivesse encontrado vida. De repente, tudo parece fazer sentido. Pegamos a vida pelas rédeas que elas nos proporciona e atacamos. Atacamos em direção ao gol adversário, vamos fazendo fila no oponente, driblando até o juiz e em meio à tudo isso poças de água enormes vão jogando água pra todos os lados possíveis. Só sobrou o goleiro. O goleiro se atira em direção a bola e consegue momentaneamente segura-lá, mas a chuva acaba fazendo a bola se soltar de suas mãos e sobrar livre pra você concluir, literalmente sorrindo em sua direção e quase falando : “Me chutaaaaa!”. Depois você só correu pro abraço.
Fim de jogo. Vitória na vida com um golaço marcado pelo protagonista dela, você.